Para metade dos brasileiros, vítima do tráfico de mulheres busca ‘vida fácil’

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(Folha de S.Paulo – 27/07/2016)  Ela nutre a esperança de sair do lugar pobre ou miserável em que vive e ir para um local melhor, onde seus sonhos serão realizados. Embarca, por isso, numa promessa, mas descobre ter sido enganada. É trancafiada e explorada.

Essa mulher, vítima do tráfico de pessoas, iludiu-se porque buscava uma “vida fácil”, na opinião de 55% dos brasileiros.

A noção de que a vítima do tráfico humano tem uma parcela de culpa pelo crime é respaldada pela metade da população do país, como mostra a pesquisa “Percepção da Sociedade Sobre o Tráfico de Mulheres”, realizada pelo Datafolha em parceria com a Associação Mulheres Pela Paz.

O cenário, para o brasileiro, é real: 96% dos entrevistados acreditam que existe tráfico de mulheres no Brasil. Para 82%, o crime acontece em sua própria cidade. Outros 16% declararam conhecer alguma vítima, mesmo que só de “ouvir falar”.

“Essa ‘vida fácil’ é um indicativo do quanto as pessoas associam a ideia do tráfico à da prostituição. Todas as pessoas em situação de tráfico sonham com um vida melhor”, diz Cláudia Luna, presidente do Movimento Contra o Tráfico de Pessoas.

A pesquisa, feita em oito capitais do país, mostra que a primeira ideia que vem à cabeça dos brasileiros quando se fala em tráfico de mulheres é justamente a da prostituição: 12% citaram a palavra. O Datafolha ouviu 1.585 pessoas entre os dias 26 e 28 de abril, em Belém, Fortaleza, Natal, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Rio e Florianópolis.

A prostituição também é a mais citada quando se pergunta “o que é o tráfico de mulheres?”. Foi a resposta dada por 31% dos entrevistados, seguida por tráfico de pessoas (30%), desrespeito (26%) e escravidão (25%).

“É um tema muito novo, que vem sendo discutido há pouco tempo. Entrou na agenda da ONU só no ano 2000, quando houve uma conferência em Palermo [Itália]. O Brasil assinou esse protocolo só em 2004”, conta Vera Vieira, diretora executiva da Associação Mulheres pela Paz.

OLHAR PRECONCEITUOSO

Para 43%, o tráfico acontece com consentimento da vítima. “Ter o consentimento não significa que a vítima está de acordo com o fato de sofrer abusos. Acaba sendo um olhar preconceituoso, estigmatizado, da mesma forma que se tem em relação à vítima da violência doméstica. É a mesma lógica patriarcal e machista”, afirma Vera.

Para ela, existe uma confusão entre tráfico de mulheres, contrabando de migrantes e prostituição com exploração sexual, sendo que a mídia, ao misturar esses conceitos, contribui para culpabilizar a vítima. Segundo a pesquisa, 66% concordam com essa visão: a cobertura da imprensa sobre o tráfico de mulheres tem viés criminal. Para 87%, falta informação sobre o tema.

Para configurar o tráfico humano, é preciso haver recrutamento, transporte e alojamento de pessoas por meio de coerção, violência e cárcere privado, com a finalidade de explorar a vítima pela prostituição ou pelo trabalho, por exemplo.

Os casos são subnotificados. “O tráfico de pessoas ainda é um fenômeno invisível”, afirma Cláudia Luna. Segundo o último “Relatório Nacional Sobre Tráfico de Pessoas”, de 2013, organizado pelo Ministério da Justiça, foram registrados, entre 2005 e 2013, 545 casos no DAC (Divisão de Assistência Consular), do Ministério das Relações Exteriores. Do total, 70% foram tráfico para exploração sexual, e 30% para trabalho escravo.

De acordo com Vera Vieira, 83% das vítimas do tráfico de pessoas são mulheres para fins de exploração sexual. “Você acaba caindo nessa construção de colocar a mulher na posição de objeto que está à venda, o que a gente chama melhor de ‘coisificação feminina’. As vítimas são jovens, entre os 18 e os 29 anos, pobres e têm baixa escolaridade, normalmente”, afirma.

Segundo ela, o tráfico de mulheres está dentro do “espectro da violência contra a mulher”. “Essa violência vem da desigualdade de gênero, essa construção milenar que coloca a mulher em condição de insubordinação em relação ao homem. Isso não é papo de feminista, as pesquisas mostram isso.” A ideia de que mulheres e crianças são as principais vítimas do tráfico de pessoas é confirmada por 68% dos entrevistados.

SERVIÇOS

Mais da metade da população brasileira diz conhecer os serviços de ajuda às vitimas do tráfico de mulheres. Os números de atendimento telefônico como o 190 e o 180 são conhecidos por 89% e 54% dos entrevistados, respectivamente. O apoio do governo, porém, é considerado ruim ou péssimo por 66%.

Para Dalila Figueiredo, que preside a Asbrad (Associação Brasileira de Defesa da Mulher), ONG responsável, ainda no final dos anos 1990, pelo primeiro posto avançado de atendimento humanizado a vítimas de tráfico humano no Aeroporto Internacional de Guarulhos, os serviços precisam ser “fortalecidos”.

“Eu tenho receio de retrocesso, não só do ponto de vista político. As ONGs estão em dificuldade, muitas delas, precursoras, já fecharam as portas. Nós temos várias barreiras para superar, sob pena de que aquilo que foi construído até agora se perca”, afirma.

Segundo ela, o posto do aeroporto de Guarulhos, mantido apenas pela prefeitura da cidade, deveria ter cofinanciamento dos governos estadual e federal. “Não pode recair todo o encargo para o município. Nossa política pública é para o mundo. Além disso, Guarulhos requer com urgência um centro de imigrações e um de acolhimento, que é algo que a gente defende há muitos anos. Toda vítima de tráfico é um migrante.”

Os dados da pesquisa Datafolha serão apresentados nesta sexta-feira (29), em evento da Associação Mulheres Pela Paz, em São Paulo.

Estêvão Bertoni

Acesse o PDF: Para metade dos brasileiros, vítima do tráfico de mulheres busca ‘vida fácil’ (Folha de S.Paulo, 27/07/2016)