Perspectivas em Confronto: relações de gênero ou patriarcado contemporâneo?, por Lia Zanotta Machado

O uso do conceito de gênero ultrapassou seu âmbito acadêmico e  multidisciplinar (antropologia, sociologia, história, ciência política, linguística, literatura, filosofia, psicologia, …), e seu âmbito de utilização nos estudos feministas. Ganhou espaço legítimo e consolidado  na circulação internacional do campo dos direitos humanos e na formulação de projetos de políticas públicas nos mais diversos âmbitos. Como conceito presente no campo político, suas referências se tornam mais flutuantes, conforme o contexto. Críticas passam a ser feitas, ora por não ser exclusivamente acadêmico e analítico, mas também político, ora por estar sendo banalizado e enfraquecido no campo político. Este trabalho se inscreve como uma resposta no interior de um debate, ao mesmo tempo, intelectual, analítico e político, sobre a utilização do conceito de gênero.

Devo a formulação deste  artigo ao estímulo das amigas sociólogas e feministas Neuma Aguiar e Lourdes Bandeira. Neuma Aguiar, idealizadora da pergunta título e expositora de uma belíssima argumentação a favor da utilização e reintrodução forte do termo “patriarcado contemporâneo” e Lourdes Bandeira, responsável pela coordenação do Simpósio: “Relações de Gênero ou Patriarcado Contemporâneo?”, organizado pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) no âmbito da 52ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Brasília, julho de 2000.

Nem sempre um debate  pode contar com posições diferenciadas, pois discorremos, grande parte das vezes, enquanto expositores, sobre assuntos correlatos, complementares, diversos, mas nem sempre divergentes. Naquele simpósio, houve seguramente um debate de idéias. Não propugnei a volta do uso forte do termo “patriarcado”,  conforme entendi ser a proposição de Neuma Aguiar. Tomei a defesa do uso conceitual e político do termo “relações de gênero”. Considero inapropriadas duas afirmações contidas na forma de reintroduzir o debate sobre o termo “patriarcado”. A primeira é a de que a partícula conjuntiva ou supõe uma alternativa e induz a escolha entre os conceitos “gênero” e “patriarcado”. Entendo que se trata de conceitos que se situam em dimensões distintas, e que, portanto, não podem ser tomados como opostos. A segunda, com a qual também não concordo, é a de que a contemporaneidade das diversas facetas, modalidades,  contradições  e transformações das relações de gênero possam ser subsumidas ao conceito de “patriarcado”, qualquer que seja o entendimento que dele se tenha.

Não sendo termos opostos, como e porque se estabeleceu esta disjuntiva? Talvez pela conotação política dos seus usos. O termo “patriarcado” remete em geral a um sentido fixo, uma estrutura fixa que imediatamente aponta para o exercício e presença da dominação masculina. O termo “gênero” remete a uma não fixidez nem universalidade das relações entre homens e mulheres. Remete à ideia de que as relações sociosimbólicas são construídas e transformáveis. Entendo assim que, talvez esta disjuntiva esteja sendo propostas por estudiosas feministas que, ao se debruçarem sobre a situação das mulheres, estejam vendo apenas a força da reprodução da dominação masculina. E que considerem as estudiosas feministas que utilizam o conceito de gênero, como otimistas, talvez utópicas, e responsáveis por deixarem na obscuridade a força da presença do patriarcado na contemporaneidade, ainda que com novas roupagens. Não propugno a não utilização do conceito de “patriarcado”.

Não entendo que seja inapropriado se falar de um “patriarcado contemporâneo”. As relações patriarcais, devidamente definidas em suas novas formas e na sua diversidade encontram-se presentes na contemporaneidade, mas seu uso implica um sentido totalizador, quer seja na sua versão adjetiva ou substantiva, e empobrece os sentidos contraditórios das transformações. Entendo que as transformações sociais contemporâneas dos lugares das mulheres e dos homens e dos sentidos das diferenças de gênero, fogem ao aprisionamento do termo “patriarcado”. A utilização do conceito de relações de gênero, não define, a priori, os sentidos das mudanças, e permite construir metodologicamente uma rede de sentidos, quer divergentes, convergentes ou contraditórios.

Extraído da Introdução do artigo.

Lia Zanotta Machado é antropóloga e professora titular da Universidade de Brasília.

MACHADO, Lia Zanotta. “Perspectivas em Confronto: relações de gênero ou patriarcado contemporâneo?” Série Antropologia (284). Brasília: Departamento de Antropologia/UNB, 2000, 20 páginas.

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