PM investigado por envolvimento em estupro coletivo é ouvido pelo MP (G1 – 24/08/2015)

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Além da corregedoria da PM, agora o MP investiga a conduta do policial. Advogado do suspeito nega que ele tenha qualquer envolvimento com o crime.

O policial militar investigado pelo Ministério Público Estadual pelo possível envolvimento no estupro coletivo ocorrido em Castelo do Piauí foi ouvido na manhã desta segunda-feira (24) na Promotoria da Infância e Juventude da Comarca de Campo Maior. Segundo o promotor de Justiça Cesário Cavalcante, também prestaram depoimento o delegado Laércio Evangelista e outros quatro policiais que também participaram das apreensões dos menores coautores do crime.

“O procurador geral solicitou abrir uma investigação sobre o policial, após representação da Defensoria Pública sobre o possível envolvimento dele no estupro coletivo. Vamos primeiro apurar se o investigado cometeu algum crime, para depois denunciá-lo ou não à Justiça”, disse.

O promotor revelou que outras pessoas ainda serão ouvidas nos próximos dias e contou não ter prazo para concluir a investigação. A Corregedoria da Polícia Militar também abriu um procedimento administrativo para investigar a possível influência do policial no caso e o afastou da função no 15º Batalhão.

Cesário Cavalcante lembrou que o policial militar foi citado pelos três coautores do estupro durante audiência, por supostamente ter pago R$ 2,5 mil para Gleison Vieira da Silva acusar os outros menores. A denúncia teria motivado a morte do adolescente no Centro Educacional Masculino (CEM).

No início do mês, quando o PM foi afastado pela Corregedoria, o promotor Cesário disse que a denúncia contra o PM apareceu durante a elaboração do processo, mas que essa tese não tinha consistência.

Investigação Corregedoria
De acordo com o subcomandante da PM, Lindomar Castilho, o policial citado pelos três coautores do estupro é também investigado pela Corregedoria da Polícia Militar do Piauí por suspeita de agenciar jovens infratores para cometer pequenos delitos em zonas onde a sua empresa de segurança noturna não atuava e assim incitar a violência na cidade.

“Na documentação da Defensoria Pública consta que essa empresa de segurança pertence ao policial e ele teria orientado jovens infratores a cometer furtos, arrombamentos e pequenos roubos para, dessa forma, conseguir novos contratos para fazer vigilância noturna”, revelou.

No documento, o policial também é apontado como proprietário de uma rádio e um portal de notícias em Castelo do Piauí. Conforme o subcomandante, a Defensoria Pública alegou que o PM utilizava desses meios de comunicação para propagar a violência na região e que isto teria influenciado o crime ocorrido na cidade.

“O defensor cita no recurso que no portal e na rádio os profissionais contratados pelo PM anunciavam crimes às vezes desconhecidos pela população e faziam até intimidações para adversários políticos. Com isso, ele provocaria o terror na cidade e teria a sua transferência de volta para Castelo, já que ele havia sido mandando para Campo Maior”, contou Castilho.

O advogado Anderson Cleber Sousa, que faz a defesa do policial militar, informou ao G1 que somente irá se posicionar sobre as acusações após o fim do inquérito administrativo.

Em entrevista concedida ao G1, anteriormente, Anderson Sousa, já havia afirmado que que seu cliente era inocente e que não existia nada que o ligasse ao estupro coletivo. “O Ministério Público denunciou e a Justiça sentenciou os jovens pelo crime. O que existe são boatos, então, não tem nada que vincule esse policial a esse fato que a imprensa está colocando”, disse.

Vítima volta a estudar
Uma das três sobreviventes do estupro coletivo em Castelo do Piauí retornou às aulas na semana passada na Unidade Estadual Francisco Sales Martins. Após o crime, a menina passou dois meses sem frequentar a escola e foi recebida com flores e festa. De acordo com a direção da escola, a garota irá prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em outubro.

Lucineide Silva, diretora da escola, falou que as outras vítimas permanecem em Teresina, sendo que uma delas pediu transferência e vai estudar na capital. Uma das meninas, que sofreu traumatismo craniano, não retornará aos estudos este ano porque continua em tratamento médico.

Participação dos menores
Após a Defensoria Pública afirmar que os três jovens condenados pelo estupro coletivo em Castelo do Piauí não estavam no local do crime, a delegada AnaMelka Cadena, titular da Delegacia da Mulher da Zona Sudeste de Teresina, afirmou não ter dúvidas quanto à participação dos adolescentes no ato.

“A Polícia Civil trabalha com responsabilidade. Juntamos todos os elementos que foram levantados, identificamos a participação dos quatro, apresentamos o indiciamento ao Ministério Público e a Justiça condenou esses adolescentes”, contou em entrevista para TV Clube.

Defensoria diz que jovens são inocentes
Segundo a defensora geral do Piauí, Hildete Evangelista, o único elemento que liga os três jovens à cena do crime e ao estupro coletivo é o depoimento de Gleison Viera da Silva, que acabou sendo morto pelos três jovens que são representados pela Defensoria Pública.

“As próprias vítimas não reconheceram os adolescentes. Se o defensor acredita que os três jovens não são coautores do crime, ele tem obrigação de recorrer da decisão. Ele se baseia nas provas mostradas nos autos e constrói a sua tese de defesa”, disse.

Processo segue para o TJ-PI
O juiz Leonardo Brasileiro, da Comarca de Castelo do Piauí, encaminhou o processo do estupro coletivo ao Tribunal de Justiça do Piauí. Segundo ele, a decisão foi baseada nas provas levantadas do caso e caberá ao órgão analisar o recurso apresentado pela defesa dos três menores acusados do crime.

“É direito da Defensoria de recorrer e tudo será analisado pelo Tribunal de Justiça. Neste momento, o defensor vai tentar convencer os desembargadores sobre a tese por ele levantada. Ouvimos várias testemunhas, são várias provas documentais no processo e eu garanto que analisei todas elas e a tese de defesa de que os menores não estariam no local do crime foi afastada desde o início”, declarou o juiz.

CNMP investiga morte
A investigação que apura a morte de Gleison Vieira da Silva, de 17 anos, será acompanhada de perto pela Comissão da Infância e Juventude do Conselho Nacional do Ministério Público (CIJ/CNMP). Em despacho, o conselheiro e presidente da CIJ, Walter de Agra, afirmou que a vítima foi colocada no mesmo alojamento com outros três adolescentes que já tinham feito ameaças contra Gleison. A intenção é apurar se houve negligência ao colocar todos o envolvidos na mesma cela.

Tanto vítimas quanto agressores são sentenciados pelo cometimento do estupro coletivo contra quatro garotas no mês de maio em Castelo do Piauí, a 190 km de Teresina.

“E esse ‘linchamento’ foi alertado pelo próprio Gleison, de que seria morto caso ficasse junto aos demais, pois fora ameaçado; no entanto, mesmo tendo avisado sobre a suposta ameaça, foi colocado nos mesmos aposentos, o que causou o seu espancamento e consequentemente a sua morte”, afirmou Walter de Agra em despacho no CNMP.

De acordo com o conselheiro, embora o CNMP não possua competência constitucional para apurar diretamente a morte do adolescente Gleison, faz-se necessário acompanhar, no âmbito do Conselho, a atuação do Ministério Público do Estado do Piauí no caso.

Catarina Costa

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