Policiamento Comunitário atende comunidades kalungas (Goiás Agora – 18/02/2016)

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No Nordeste de Goiás, três comunidades remanescentes de escravos que se refugiavam em quilombos vivem isoladas em uma região de difícil acesso em meio ao relevo entrecortado da Chapada dos Veadeiros, no município de Cavalcante. São os kalungas, ainda desconhecidos da maioria da população do Estado.

Boa parte das 826 famílias não tem acesso à eletricidade e tira seu sustento da zona rural. Esse afastamento não impediu a Polícia Militar de se fazer presente, por meio de um projeto de implantação do policiamento comunitário que vem sendo desenvolvido desde abril de 2015.

De acordo com o assessor de comunicação da PM, tenente-coronel Ricardo Mendes, de lá para cá, foram realizadas várias visitas à comunidade com o objetivo de conhecer melhor a realidade dos nativos da região e realizar um levantamento das demandas do povo, que se mostrou, em um primeiro momento, bastante arisco, por causa de seu costume e histórico.

Mas, aos poucos, os policiais foram ganhando a confiança e criando vínculos. Foram visitadas várias famílias e constatou-se que há vulnerabilidade em relação aos crimes de violência sexual infantil e exploração do trabalho doméstico, além do uso de drogas lícitas, como álcool e tabaco, e também ilícitas.

“Diante dessas informações, nós decidimos reunir uma equipe multifuncional da Polícia Militar composta por psicólogos, pedagogos e policiais militares que são especializados em policiamento comunitário e ambiental e outras áreas da corporação. Só no dia 13 de dezembro de 2015, atendemos mais de 150 famílias. Lá nós aplicamos durante uma semana e o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd ) conversando com as crianças e os pais e ministramos palestras, criando um canal de comunicação entre a comunidade kalunga”, afirma.

A iniciativa foi apoiada pelo comandante-geral, coronel Silvio Benedito Alves, que instituiu a filosofia do policiamento comunitário em Goiás, com caráter preventivo. A ideia é estabelecer uma relação próxima entre corporação e moradores, a tal ponto que eles tenham confiança e denunciem os crimes. Ricardo afirma que as denúncias recebidas pelas equipes já foram, inclusive, encaminhadas ao Ministério Público Estadual para as providências cabíveis.

Patrulhamento rural

Desde agosto de 2015, as comunidades podem contar também com o patrulhamento rural realizado regularmente na região. Isso foi possível depois que uma caminhonete com tração nas quatro rodas, dada à dificuldade de acesso à região, foi disponibilizada pela Secretaria de Segurança Pública, por determinação do governador e do comandante-geral.

Ricardo Mendes diz que o trabalho continuará, com pelo menos seis visitas programadas para este ano. “Também precisamos trabalhar a prevenção das drogas lícitas como álcool porque são uma comunidade afastada e não deixam de potencializar as ocorrências policiais. Por ser uma comunidade de difícil acesso e por uma questão cultural, eles se mantiveram afastados da estrutura do Estado e a PM foi o primeiro órgão do Governo de Goiás a se aproximar, por determinação do governador Marconi Perillo”, avalia.

Mendes acredita que o trabalho está rendendo bons frutos e que impedirá novos relatos de casos de violência sexual de adolescentes das comunidades que vieram à tona em 2015. “A grande importância para nós como policiais é salvar vidas, por exemplo, quando apreendemos armas de fogo. Neste mês (janeiro) retiramos 400 armas de fogo de circulação do Estado e isso representa muitas vidas que estão sendo preservadas. É a mesma coisa nessa operação dos kalungas. Estamos trabalhando de maneira preventiva para que não ocorram mais casos de exploração sexual com crianças e adolescente daquela comunidade por falta de uma orientação, e que se envolva com drogas. Essa é a nossa satisfação, esse é o nosso objetivo que é prevenir qualquer tipo de delito de natureza criminosa não só com a comunidade kalunga mas é claro com todos os goianos.

Plantando uma semente

A coordenadora do projeto, sargento Karen Carrijo, com 15 anos de carreira, demonstra um certo encantamento ao falar sobre o projeto. Até então, ela nunca tinha tido contato com o povo kalunga e confessa: foi amor à primeira vista. As visitas começaram antes mesmo das denúncias de abusos sexuais envolvendo meninas quilombolas virem à tona. As três comunidades (Engenho – a única que conta com eletricidade com  e exploração do potencial turístico, com 126 famílias, Vão de Almas, com cerca de 300 famílias, e Vão do Moleque, com mais de 400 famílias) serão atendidas.

Ela comenta que as crianças que vivem no campo e estudam na cidade acabam se tornando escravas do trabalho doméstico em casas de famílias e também escravas sexuais. O Proerd, que na capital é voltado para a problemática do enfrentamento às drogas, foi modificado para atender à realidade dos moradores que convivem com o contexto de violência contra a mulher. O problema é que essa mesma violência, arraigada no passado deles, torna-se velada.

“Existem certos tabus na comunidade em relação à sexualidade e, então, muitas vezes as crianças não são advertidas e orientadas e não sabem que estão sendo abusadas. Então, a Polícia Militar entra justamente com o Proerd neste sentido de orientar, de esclarecer os direitos básicos e deveres da comunidade para ajudar a polícia e para que não se tornem vítimas. Assim, mesmo a polícia não estando presente eles têm consciência do que é certo, do que é errado e se forem vítimas irão perceber e acionar a polícia”, diz.

Ela define o trabalho como uma “sementinha que está sendo plantada e que dará frutos”, mesmo que seja a longo prazo. “Tentamos repassar a eles informações que não são repassadas pelas famílias, pelos pais. E toda a comunidade é envolvida, crianças e adolescentes assistem às palestras durante o dia e as mães e os pais também, à noite, quando concluem o trabalho na casa e no campo, respectivamente. É um projeto brilhante, um trabalho de formiguinha, apesar de ser cansativo porque chegamos a percorrer quase 700 quilômetros em um dia e depois levamos mais meio dia em estrada de chão para chegar até nosso destino, o povo é bastante receptivo e hospitaleiro. O projeto é gratificante. Voltamos para casa cansados, mas de alma lavada”, orgulha-se.

Conscientização

O presidente da Associação Quilombo Kalunga, Vilmar Souza Costa, que representa as comunidades espalhadas por Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, reconhece esse esforço. “Esse trabalho é maravilhoso e nos traz esperança porque a conscientização é melhor do que a punição e eles vêm para conversar. Geralmente, as pessoas têm medo da polícia, mas eles respeitam muito a gente. É um trabalho que está dando resultado”, considera.

Social

Sensibilizada com os estragos causados pela enchente do Rio do Prata na região, que destruiu as moradias feitas de adobe, a corporação se mobilizou e realizou, em parceria com um cursinho particular de Goiânia, uma ação social para a arrecadação de alimentos não-perecíveis durante um aulão realizado na segunda-feira de Carnaval. Cada aluno levou cinco quilos. Na ocasião, foi arrecadada mais de uma tonelada que será doada para as famílias atingidas pela cheia perderam tudo.

Gabriela Louredo

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