‘Pornografia de vingança é um problema de gênero’ (Época – 03/12/2015)

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterEmail this to someone

Estudantes de jornalismo criam site para conscientizar sobre o crime e exploram em quais leis as vítimas podem se apoiar

A pornografia de vingança – divulgação de imagens íntimas não consentidas na internet –atinge cada vez mais usuários (do sexo feminino, em sua grande maioria) no ambiente digital, gerando danos muitas vezes irreparáveis à vida das vítimas. Na tentativa de conscientizar sobre um crime em ascensão na última década no Brasil, as estudantes de jornalismo Júlia Barbon, Julia Latorre e Ketlyn Araujo, da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, lançaram o site Pornografia de Vingança, orientadas pela professora Michelle Prazeres. A plataforma traz relatos de vítimas e informações sobre como se proteger com o auxílio das leis, além de projetos em trâmite para a retirada das imagens da rede e da punição dos agressores virtuais.

Dados da Safernet, uma das ONGs de referência que presta apoio a vítimas de crimes virtuais, mostram que as notificações de pornografia de vingança crescem com força no país: em 2013, foram 101 pedidos de ajuda contra 224 no ano seguinte, mais do que o dobro — sem contar os casos que não são contabilizados. As estudantes afirmam: a questão é de gênero e a solução para o crescente problema não consiste em “deixar de mandar nudes”, mas em deixar de compartilhar a intimidade alheia sem consentimento.

Ketlyn Araujo, Julia Latorre e Júlia Barbon lançaram o "Pornografia de Vingança", com o intuito de prestar um serviço às vítimas (Foto: Arquivo Pessoal)

Ketlyn Araujo, Julia Latorre e Júlia Barbon lançaram o “Pornografia de Vingança”, com o intuito de prestar um serviço às vítimas (Foto: Arquivo Pessoal)

ÉPOCA – Após o período de estudo, vocês chegaram à conclusão de que é difícil remover as fotos íntimas nas redes sociais por uma questão burocrática e de políticas internas dos provedores ou por falta de informação das vítimas?
Júlia Barbon, Julia Latorre e Ketlyn Araujo – Os dois. Como o problema é relativamente novo, as vítimas não sabem por onde começar. Há instituições que prestam auxílio nesse sentido, mas faltam informações ao grande público. Essa foi uma das intenções do trabalho, prestar um serviço a essas vítimas. Com relação à política interna dos provedores, o Marco Civil da Internet hoje obriga essas empresas a remover o conteúdo imediatamente, se solicitado. No entanto, a internet é um ambiente dinâmico e não há como garantir que o conteúdo será 100% excluído.

ÉPOCA – Há necessidade de educar os usuários no ambiente digital? Vocês acreditam que houve progresso com o Marco Civil da Internet, por exemplo?
Júlia, Julia e Ketlyn – De acordo com a nossa apuração, um dos problemas que leva à pornografia de vingança é, sim, a falta de educação na internet. Os pais não entendem o que os filhos vivem na rede, e os professores também não dão o suporte necessário para que crianças e adolescentes atuem no ambiente digital. As pessoas tratam a internet como algo separado da vida “real”, quando essa divisão não existe necessariamente. Ou seja, a educação ética para as relações sociais “normais” deveria valer para as relações virtuais também. Entendemos que o Marco Civil não tem relação direta com a educação, mas que depois dele o debate sobre os limites do uso da internet se ampliou.

ÉPOCA – Incentivar a educação sobre questões de gênero nas escolas é uma saída para reverter o grande número de vítimas mulheres em casos de pornografia de vingança?
Júlia, Julia e Ketlyn – Sem dúvidas. Percebemos que esse problema é muito recorrente nas escolas, e falar sobre gênero nesse ambiente é fundamental, já que a maioria das vítimas são mulheres.

ÉPOCA – Por que o interesse de mulheres por sexo na internet ainda é uma questão condenável na nossa sociedade?
Júlia, Julia e Ketlyn – Porque a mulher ainda é vista como alguém que deve viver uma vida privada. A mulher sempre foi ensinada a se preservar e a manter sua sexualidade discreta, enquanto o homem é estimulado a ter uma vida sexual ativa desde cedo. Quando ela “invade” o ambiente público, é como se a sociedade sentisse necessidade de fazê-la voltar ao seu lugar. É aí que entra o julgamento.

ÉPOCA – Diante dos relatos e contato com as vítimas, vocês consideram que elas estavam informadas sobre os procedimentos para remover as imagens ou para punir os agressores?
Júlia, Julia e Ketlyn – Não, a Justiça só foi acionada em dois casos dos oito que relatamos, sendo que em um deles a adolescente havia cometido suicídio. A maioria delas disse que não acreditava na eficácia do sistema judiciário e que não achava que os agressores seriam punidos da forma como gostariam. Diante da apuração, percebemos que são poucas as instituições que auxiliam vítimas nesse sentido.

ÉPOCA – Vocês mapearam a história da pornografia de vingança. De que maneira ela se popularizou?
Júlia, Julia e Ketlyn – A história da pornografia de vingança está relacionada principalmente à popularização da internet e dos smartphones. Com o surgimento de câmeras digitais, câmeras de celular etc., fica cada vez mais fácil se fotografar ou se filmar, assim como compartilhar essas imagens. Foi depois disso que fenômenos como selfie, sexting e nudes se espalharam. Ela está ligada também ao crescimento da pornografia amadora. É uma pornografia amadora deturpada, como disse a socióloga Carolina Parreiras. As pessoas se identificam e se sentem mais próximas desse tipo de conteúdo, só que no caso da pornografia de vingança há consequências ruins.

ÉPOCA – As vítimas que vocês conversaram buscaram apoio psicológico?
Júlia, Julia e Ketlyn – Uma parte das vítimas com quem conversamos procurou, a outra não. Varia muito de caso para caso. Muitas têm medo de contar para os pais e amigos, e consequentemente não buscam auxílio, nem psicológico nem jurídico. Outras passam por problemas como depressão ou transtornos alimentares e acabam precisando de ajuda.

ÉPOCA – Para vocês, qual seria a solução: a mulher deve deixar de “mandar nudes” ou é a fiscalização sobre esses compartilhamentos sem consentimento que deve aumentar?
Júlia, Julia e Ketlyn – Uma das conclusões a que chegamos depois do trabalho é de que a solução não é deixar de mandar nudes, até porque esse comportamento já faz parte das novas gerações e não será revertido. O problema está em divulgar a intimidade de alguém sem o consentimento desta pessoa. Mas achamos que não é caso de fiscalizar quem compartilhou. Acreditamos que o caminho é a conscientização — tanto de quem divulga esse material quanto das pessoas que o compartilham e julgam a vítima. É preciso mostrar que isso é um crime e pode ter consequências muito graves.

ÉPOCA – Em que nível a pornografia de vingança é um problema de gênero?
Júlia, Julia e Ketlyn – A pornografia de vingança é um problema de gênero. A grande maioria das vítimas é mulher e, segundo uma das coordenadoras da ONG Safernet, Juliana Cunha, o restante é de homens homossexuais. Ouvimos falar em poucos casos de vítimas do gênero masculino que sofreram com o revenge porn [pornografia de vingança] e, nesses casos, as consequências foram muito diferentes: ou eles são os “fodões” por transarem com a mulher ou são criticados por “terem o pau pequeno” e coisas do tipo. O julgamento sempre recai sobre elas.

ÉPOCA – Qual foi o maior aprendizado com a pesquisa? E os maiores desafios?
Júlia, Julia e Ketlyn – Aprendemos, principalmente, que aquilo que fazemos no “mundo virtual” não está separado da nossa vida offline, mas que não devemos restringir a liberdade do nosso corpo por causa dessas questões. Os maiores desafios foram em relação às questões éticas que tivemos de enfrentar ao longo do trabalho. Optamos por priorizar a voz das vítimas mulheres, principalmente pela questão de gênero já explicada. Em respeito ao pedido delas, decidimos não conversar com os agressores. Além disso, procuramos ter um cuidado especial no momento de fazer as entrevistas, já que esse é um assunto delicado e não pode ser tratado como algo banal.

Gabriela Varella e Paula Soprana 

Acesse no site de origem: ‘Pornografia de vingança é um problema de gênero’ (Época – 03/12/2015)