“Precisamos de homens com coragem para fazer parte da mudança”, diz ativista (O Diário – 24/05/2015)

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Combater a violência doméstica e familiar contra a mulher é um dos principais desafios do Poder Público e da sociedade civil no Brasil. Uma pesquisa do DataSenado realizada em 2013 estima que, aproximadamente, uma em cada cinco brasileiras reconhece já ter sido vítima de abuso sexista. Isso significa que mais de 13 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de agressão.

É possível observar uma mudança cultural em curso. A Lei 11.340 de 2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, foi um grande avanço nesse sentido. No entanto, há uma tendência da vítima não procurar a polícia. Segundo o DataSenado, 65% das mulheres que sofreram abuso foram agredidas pelo parceiro de relacionamento, ou seja, por marido, companheiro ou namorado. Apesar de ser o grande responsável pela violência baseada em gênero, o homem é comumente excluído das discussões sobre o assunto.

O ativista norte-americano Jackson Katz é cofundador do programa Mentors in Violence Prevention (Mentores na Prevenção da Violência, em tradução livre). Trata-se de um treinamento de liderança focado em combater todas as formas de violência do homem contra a mulher nos Estados Unidos. Foi uma iniciativa pioneira em responsabilizar o papel do homem na sociedade como fundamental para coibir a violência baseada em gênero. Em entrevista exclusiva para O Diário do Norte do Paraná, Jackson Kats fala sobre como cada homem pode fazer a diferença no local em que vive.

O Diário: Você defende que é necessário parar de pensar na violência baseada em gênero como uma questão essencialmente da mulher. Por quê?

Jackson Katz: Porque isso transfere as responsabilidades de abordar e prevenir o assunto exclusivamente para as mulheres – o que é uma forma sutil, mas poderosa, de colocar a culpa na vítima. A única maneira de fazermos reduções significativas na violência dos homens contra as mulheres é abordarmos isso como uma questão dos homens. É também uma questão de liderança. Homens em posição de liderança cultural, institucional e política precisam fazer o que puderem para mudar as normas sociais que suportam o abuso sexista. Não porque nós somos “caras legais”, mas porque nós somos líderes.

O Diário: Por que você acredita que o homem ainda é excluído dessa conversa?

Jackson Katz: A mesma razão pela qual os brancos, muitas vezes, são excluídos das discussões sobre racismo. É, em grande parte, sobre poder e privilégio. Mas há uma segunda razão. Muitas mulheres estão céticas de que os homens podem, efetivamente, ser parte ativa da solução. Isso está mudando, pois homens em várias partes do mundo estão envolvidos em conversas sobre a violência de gênero que costumavam ocorrer apenas entre as mulheres.

O Diário: Como podemos prevenir ou interromper o abuso sexista?

Jackson Katz: Cada homem precisa determinar o que pode fazer em sua esfera de influência. Particularmente, precisamos de mais homens adultos dispostos a se tornarem pais fortes, professores, treinadores e mentores para os garotos, a fim de ajudá-los a desenvolver os valores morais e habilidades práticas para interagir com as mulheres, como sendo amigas e parcerias, e não como cidadãs de segunda classe. Nós estamos no século XXI.

O Diário: O que cada um pode fazer?

Jackson Katz: Uma maneira de começar é entender que as possibilidades de sucesso, tanto para homens quanto para mulheres, estão interligadas. Quando nós ajudamos as mulheres a avançarem, nós também ajudamos os homens. E sejamos honestos: o mesmo sistema que produz homens que abusam de mulheres, produz homens que abusam de outros homens. Homens que são vítimas de violência – incluindo garotos que são abusados sexualmente – são prejudicados pelo mesmo conjunto de crenças sociais e costumes que prejudicam meninas e mulheres. Precisamos de homens com coragem para fazer parte da mudança. Se voluntarie para ajudar nas organizações. Encontre entidades criadas por homens que abordem essas questões, como a grande brasileira Promundo. Se não existe, crie uma. E trabalhe para conseguir programas de prevenção de violência baseada em gênero nas escolas, nos esportes, no mundo dos negócios, em qualquer lugar. Localize homens e mulheres de influência que podem te ajudar a fazer acontecer e trabalhe com eles.

Pedro Real

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