‘Precisamos falar do assédio’ expõe de modo cru o drama da violência sexual (Rede Brasil Atual – 29/09/2016)

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Filmado dentro de uma van-estúdio, documentário da diretora Paula Sacchetta apresenta 26 depoimentos de mulheres vítimas de algum tipo de violência sexual

Entra em cartaz hoje (29), no Cine Belas Artes, na região central de São Paulo, o documentário Precisamos falar do assédio, da diretora Paula Sacchetta, que o define como “bruto, duro, cru”. São 26 depoimentos de mulheres contando casos de violência sexual sofrida, em grande parte, durante a infância ou adolescência.

A força dos depoimentos tem ainda mais vitalidade em função da estética adotada pela diretora. Com um fundo escuro, os depoimentos são colhidos com apenas uma câmera parada e a mulher, em close, contando sua história. O filme tem a particularidade de ter sido um projeto-rodante, com as falas sendo tomados dentro de uma van-estúdio, uma espécie de confessionário, que percorreu cinco endereços da cidade de São Paulo e quatro do Rio de Janeiro durante a semana da mulher, em março deste ano.

Ao todo, foram 140 mulheres, entre 14 e 85 anos de idade, vítimas de qualquer tipo de assédio, que decidiram expor sua história. Os depoimentos são puros, sem qualquer tipo de interlocução ou entrevista, e podiam ser feitos mostrando o rosto ou usando máscaras. “No primeiro dia na rua, as mulheres foram tímidas, tentando entender o que estava acontecendo. Isso mudou a partir do segundo dia, quando, após o projeto ter aparecido na mídia, começou a haver uma mobilização das mulheres para encontrar a van e dar seu depoimento”, diz Paula, também diretora do documentário Verdade 12.528, sobre a criação da Comissão Nacional da Verdade.

Trailer Precisamos Falar do Assédio (FB) from mira filmes on Vimeo.

“Falo das coisas mais tristes e feias do mundo, para tentar mudá-las”, afirma Paula. Ela explica que a ideia do filme surgiu após a grande repercussão nas redes sociais das campanhas #meuprimeiroassédio, #meuamigosecreto e #agoraéquesãoelas. Para a diretora, a partir do momento em que as mulheres se sentem parte de um problema maior, que envolve também milhares de outras mulheres, há mais coragem para falar sobre a violência sofrida.

“A gente naturaliza a violência e não olha para ela como deveria”, disse, ponderando que talvez muitas mulheres só lembrem do fato ocorrido após verem ou lerem outras comentando fatos semelhantes. “Aprendi o sentido mais profundo da palavra acolhimento”, disse, ao falar sobre o processo de produção do documentário. “Ouvir as histórias mais horríveis que eu podia ouvir, foi também muito bonito como um lugar de encontro.”

O filme tem sido comparado por críticos com documentários realizados pelo cineasta Eduardo Coutinho, morto em fevereiro de 2014. “Pra mim é uma honra escutar esse tipo de coisa, ele é um mestre do documentário”, afirma, dizendo-se satisfeita por fazer um filme sobre um tema tão difícil e que está sendo bem avaliado esteticamente.

Precisamos falar do assédio fica em cartaz até 5 de outubro, com sessão às 16h40. O Cine Belas Artes fica na Rua da Consolação, 2.423.

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