Programa da Prefeitura de SP dá emprego a alvos de violência doméstica: ‘Sem independência, não há dignidade’, diz vítima (G1 – 23/12/2018)

Projeto ‘Tem Saída’ faz parceria com empresas para recolocar mulheres no mercado de trabalho. ‘Fatores que levam a mulher a continuar vivendo com o agressor são muitos, mas a dependência econômica é determinante’, diz secretária.

Demorou 18 anos para que Maria* finalmente conseguisse se libertar de seu algoz. Assim como muitas mulheres, ela sofreu agressões físicas e psicológicas durante todo o casamento. Para além do medo e da falta de apoio, a preocupação de não conseguir criar os três filhos devido à dependência financeira que tinha do marido era um dos motivos que a mantinham presa na relação.

“Eu pensei em me separar no momento que percebi que eu não tinha vida própria. Que ele estava me controlando, que estava me dominando. Mas quando eu percebi isso, já estava com meus três filhos. Aí resolvi ficar um tempo até conseguir ajudar os meus filhos”, afirma.

Após muitas queixas na delegacia e um longo processo de fortalecimento interno, Maria conseguiu o divórcio. Mas as dificuldades financeiras continuaram e a falta de formação foi uma barreira para que ela conseguisse emprego.

Em outubro deste ano, a situação mudou quando ela foi contratada no programa “Tem saída” da Prefeitura de São Paulo, novo projeto que faz parceria com seis grandes empresas para promover a autonomia financeira de vítimas de violência doméstica. Depois do atendimento jurídico relativo às agressões, elas são encaminhadas para essas vagas prioritárias.

“Os fatores que levam a mulher a continuar vivendo com o agressor são muitos, mas a dependência econômica é determinante. O que importa é dar para a mulher essa possibilidade de escolha”, afirma Aline Cardoso, Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico.

O programa foi criado em agosto deste ano. Desde então, 16 mulheres foram contratadas e outras 29 estão na fase de processo seletivo. Segundo a secretária, também são oferecidas oficinas de capacitação, ajuda para montagem de currículos e apoio psicológico.

“Eu acho que existe algo muito mais profundo nisso. Não é só dar um trabalho. Porque a maioria das mulheres, elas ficam muito aprisionadas. E você se anula. Então hoje não é só te dar um trabalho, mas te dar uma oportunidade de se preparar para esse mercado, para esse mundo”, afirma Maria.

Para participar do projeto, a mulher tem que ser encaminhada pelo sistema judiciário: Ministério Público, Defensoria Pública ou Tribunal de Justiça. Após ser feito o cadastro com os documentos pessoais e a carteira de trabalho, a candidata é encaminhada para o processo seletivo na vaga que mais se encaixa ao seu perfil.

Segundo a secretaria, há total discrição na seleção para que a condição da vítima não seja exposta aos outros funcionários da empresa. Apenas o RH é informado para garantir o atendimento específico e apoio necessário.

A vaga que Maria conseguiu é na limpeza. Embora ainda não seja a que ela gostaria, o emprego foi fundamental para que ela conseguisse se sentir mais tranquila.

“Estou tendo o meu dinheiro. É pouco, mas dá para pagar minhas despesas pessoais. Porque no momento que você não tem isso, você passa a não ter dignidade”, diz Maria, que pretende agora fazer outros cursos para mudar de área.

As empresas que hoje participam do programa são do setor varejista de hipermercados, eletrodomésticos, vestuário e alimentação. Segundo a secretária, o objetivo para o ano que vem é ampliar o número de parcerias para aumentar o a diversidade das vagas oferecidas.

“Os números brasileiros de violência doméstica são assustadores e por muitos anos a sociedade não falava sobre isso. A autonomia financeira é uma política estruturante, que permite que a mulher se afaste do agressor. Trazer essa solução tem um efeito de multiplicação. Estamos sendo procurados por vários órgãos de justiça para que a iniciativa seja adotada também em outras cidades. Além de mais empresas que querem participar”, diz Aline.

Relato de Maria, vítima de violência doméstica — Foto: Rafael Leal/G1

Relato de Maria, vítima de violência doméstica (Foto: Rafael Leal/G1)

Números da violência contra a mulher

O Brasil registrou mais de 600 casos de violência doméstica por diaem 2017, segundo levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Foram 221.238 casos de lesão corporal dolosa enquadrados na Lei Maria da Penha, mas os números podem ser ainda maiores, já que alguns estados não apresentaram estatísticas

Dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram que mais de 42 mil casos de lesão corporal foram registrados no estado de janeiro a outubro de 2018. Veja na tabela abaixo outros crimes contra a mulher registados durante o período.

Crimes contra a mulher no estado de São Paulo

TIPO DE CRIME TOTAL DE JANEIRO A OUTUBRO DE 2018
Homicídio doloso 95
Homicídio culposo 3
Tentativa de homicídio 241
Lesão corporal dolosa 42.316
Maus tratos 295
Calúnia – Difamação – Injúria 10.011
Constrangimento ilegal 97
Ameaça 48.233
Invasão de domicílio 280
Dano 734
Estupro 519
Tentativa de estupro 32
Estupro de vulnerável 447
Outros crimes contra dignidade sexual 72

Fonte: Secretaria de Segurança Pública de São Paulo

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