Projeto discute violência contra a mulher e capacita moradoras da Maré, no Rio (Agência Brasil – 28/10/2016)

O desejo de organizar a cozinha da igreja que frequentava foi o que motivou Livia Santos, de 30 anos, a buscar uma qualificação em gastronomia. Moradora do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, ela foi uma das alunas do projeto Maré de Sabores, que já ofereceu cursos profissionalizantes a 400 mulheres da comunidade. Tímida e dependente do pai naquela época, ela chama de reviravolta o que aconteceu em sua vida depois disso:

“Eu só ficava em casa e, de repente, vi que estava ganhando dinheiro e independente do meu pai. Fiquei feliz demais e mudei”, conta Livia, que hoje trabalha com outras mulheres formadas pelo curso em um buffet. “Foi meu primeiro emprego e até hoje estou aqui”.

Rio de Janeiro - Casa das Mulheres da Maré é inaugurada no Parque União, uma das comunidades do complexo de favelas. O local vai abrigar projetos e serviços voltados para o empoderamento e incentivo à autonomia das

Casa das Mulheres da Maré é inaugurada no Parque União, uma das comunidades do complexo de favelas (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

A partir de hoje (28), o projeto ganhou um novo endereço, a Casa das Mulheres da Maré, que foi inaugurada pela Redes de Desenvolvimento da Maré. A organização não governamental atua em diversas frentes na comunidade e vai oferecer cursos de gastronomia básica e avançada no espaço, que fica na Rua da Paz, na comunidade Parque União.

Coordenadora da casa, Shirley Villela estima que 30 vagas devem ser oferecidas no próximo mês de janeiro e explica que o projeto também vai trabalhar em discussões de gênero para fortalecer o enfrentamento da violência contra a mulher.

“A casa nasce com o foco de atender mulheres da Maré, seja no âmbito profissional ou no âmbito geral”, diz a coordenadora, que firmou uma parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro para que estudantes dos cursos de Direito, Serviço Social e Psicologia façam parte do projeto dando orientações às mulheres em suas áreas de formação.

Chance de libertação

A possibilidade de obter uma nova renda com a profissionalização pode significar mais independência para mulheres que estão em situação de violência, explica Shirley.

“A dependência financeira muitas vezes perpetua a situação de violência. A mulher se vê sem perspectiva de sair daquela situação e enfrentar uma vida sozinha ou com os filhos que sustenta. A gente acredita que essa oportunidade possa melhorar a qualidade de vida delas”.

O curso de gastronomia avançada terá como principal público o conjunto de mulheres que já passou pelo Maré de Sabores. Muitas, como Lívia, se dedicam à profissão e querem se especializar ainda mais.

Josélia Moura, de 44 anos, já teve algumas aulas, mas quer se profissionalizar. A dona de casa planeja somar na renda da família como cozinheira e conta que nem gostava de cozinhar quando teve a ideia.

“Por enquanto, eu só cozinho em casa. O pessoal lá de casa é minha cobaia. Ano que vem, com certeza vou fazer alguma coisa aqui”, conta ela, que também considera muito interessante o espaço de discussão sobre violência contra a mulher. “A mensagem é que a mulher, a partir do momento que ouviu um grito, ela não pode baixar a cabeça”.

Perfil da mulher da Maré

Segundo o Censo de 2010, 51% dos mais de 130 mil moradores do Complexo da Maré são mulheres e 57% delas se declaram negras (pretas ou pardas).

A maior parte delas não tinha completado o ensino médio no ano da pesquisa, e 63% tinham renda entre um quarto de salário mínimo e um salário mínimo.

Vinicius Lisboa – Repórter da Agência Brasil
Edição: Kleber Sampaio

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