Projeto social reabilita agressores em Sorocaba: ‘Hoje não bateria de novo’ (G1 – 26/06/2015)

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Homens recebem acompanhamento psicológico após violência doméstica. Programa buscar tratar agressores para evitar reincidência.

“Hoje não bateria na minha mulher. Já reajo de forma diferente na mesma situação”. Esse é o depoimento de um dos homens que passam por acompanhamento psicológico e social no Centro Especializado de Reabilitação do Autor em Violência Doméstica (Cerav). A ideia do programa realizado em Sorocaba (SP) pelo Centro de Integração da Mulher (CIM-Mulher), que também cuida das vítimas, é evitar que os agressores voltem a cometer a violência doméstica.

Após a denúncia das vítimas para a delegacia, é iniciado um processo que pode acabar em prisão ou não. Por ordem de um juiz, os participantes que possuem medidas protetivas (quando são impedidos de se aproximar das mulheres) ou sentenças com base na Lei Maria da Penha participam de 15 reuniões, individuais e coletivas, onde debatem sobre os crimes que cometeram. A participação pode diminuir o tempo de prisão, caso sejam condenados na justiça.

Criado há nove anos, o artigo 35 da lei diz que os munícipios poderão criar centros de educação e de reabilitação para os agressores. Mas, de acordo com a Secretaria Nacional de Políticas para a Mulher, não é obrigatório informar sobre a existência destas unidades de tratamento.

Oficialmente, existem 15 projetos em todo o pais vinculados a Justiça no Distrito Federal e nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Maranhão. Em Sorocaba, o Cerav é mantido pela ONG CIM-Mulher, com apoio da prefeitura.

O G1 acompanhou uma dessas reuniões e conversou com os agressores. Os relatos expostos durante a roda de bate-papo entre os participantes vão desde violências verbais, em discussões acaloradas, até ações provocadas por eles que fizeram com que acabassem atrás das grades.“Eu não admitia que estivesse errado. Tem gente que pratica tanto crime e não acontece nada. Eu não bati, só empurrei a minha ex-mulher, então eu cheguei muito bravo”, contou um motorista de 38 anos denunciado por agressão.

De acordo com a assistente social do Cerav, Tatiana Festa, o principal ponto é fazer o homem entender que está errado. “Eles chegam agressivos e se sentindo injustiçados, porque não entendem o que aconteceu e não enxergam o crime que cometeram. Então é preciso quebrar qualquer pensamento desses homens para que eles percebam que a agressão não é só física”, explica.

Para a coordenadora do CIM-Mulher, Cintia de Almeida, este é o primeiro passo para a recuperação. “Nós fazemos uma pergunta muito forte que é: ‘você tem sido para a sua esposa o marido que você quer para a sua filha no futuro?’. É ai que eles se chocam porque provavelmente nunca tinham pensado nisso”, diz.

Álcool e drogas
Na maioria das agressões relatadas, sejam verbais ou físicas, um dos principais pontos relatados pelos homens é a influência do uso de drogas ou bebidas alcoólicas. “Durante uma discussão, por bobeira, acabei empurrando ela, chamaram a polícia e acabei preso. Não cheguei a bater nela, mas eu tinha bebido e perdi o controle. Tudo isso na frente da minha filha, de 13 anos”, conta um motorista de 33 anos, que faz acompanhamento no programa.

O uso do álcool também afetou a vida do representante comercial de 40 anos, que acabou se afastando da família. Com a vida em bares, as brigas com a esposa na frente dos filhos de 7 e 12 anos eram cada vez mais frequentes. Os bate-bocas acalorados terminaram em ameaças e, após isto, no fim do casamento e no registro do boletim de ocorrência. “Para mim, apenas colocar comida na mesa era o suficiente. Eu não percebia que era preciso carinho”, diz.

Um professor de 38 anos também relata que o uso de drogas pelo casal, principalmente a cocaína, acabou motivando brigas. Ele foi preso duas vezes e saiu, uma semana depois, após o pagamento de fiança. “Não tinha lugar e nem hora. São marcas que ficam tanto por dentro quanto por fora”, diz.

Ajuda ao agressor
A psicóloga do Cerav, Cristina Gutierres, conta que o programa foi baseado na Lei Maria da Penha, que já preve mecanismos de segurança para a mulher. “O texto da lei muito completo, então esse projeto vem para complementar a lei. É preciso recuperar o agressor, porque a melhor proteção para a mulher é justamente um homem consciente”, diz.

Antes de integrar o grupo, os agressores passam por entrevistas individuais, onde são lidos os boletins de ocorrências e feitas as entrevistas preliminares. “Geralmente essas pessoas já tem um histórico de violência doméstica com os pais ou algo semelhante. O que nós fazemos aqui é justamente quebrar esse ciclo e evitar que eles acabem repetindo o que viram quando mais novos”, diz. De acordo com ela, o processo é lento. “Passo a passo vamos fazer esse trabalho. Nós vamos conversando e tratando o agressor para a ajudar a família como um todo”, analisa.

Durante as rodas de conversa, os agressores trocam experiências, discutindo os erros em cada parte da vida. Pouco a pouco, eles se abrem e expõe as vivências, dúvidas, incertezas e pensamentos. “Essa troca de experiências é muito importante. Porque eles mesmo acabam se julgando e percebem que estão errados. Eles entendem a responsabilidade pelo que fizeram”, avalia.

Tatiana afirma que, apesar do pouco tempo em que o projeto está em atividade, os resultados já começam a surgir. “Estamos percebendo mudanças sim. Eles relatam estarem diferentes, menos agressivos e que chegaram a evitar novas brigas.

O motorista, que empurrou a mulher, hoje, por exemplo, conta que já está mais calmo. “Com um conhecimento que conquistei nas reuniões, eu não faria de novo. Antes eu era mais estourado, agora sou mais equilibrado. Já tive uma situação parecida, mas soube agir de forma diferente. Controlei-me”.

Agora, o que eles buscam é começar a vida de novo. “Eu precisava disto. O meu objetivo hoje é lutar para conseguir a minha família de volta. O bem maior que Deus me deu”, afirma o representante comercial.

Jomar Bellini

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