Promotor afirma que Bruno não confessou crime, mas delatou Bola (G1/MT – 06/03/2013)

Promotor Henry Wagner avalia que Bruno não confessou crimes, mas delatou Bola, como o assassino de Eliza (Foto: Pedro Cunha / G1)O promotor Henry Wagner afirmou, na noite desta quarta-feira (6), que Bruno Fernandes, durante o interrogatório, não confessou nenhum crime dos quais ele é acusado, mas delatou Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, apontado como o executor de Eliza Samudio. “Não há sequer nenhum traço de confissão nas palavras dele”, afirmou. Com relação a Bola, a oitiva de Bruno mostrou que ele foi o homem contratado para matar Eliza, segundo o representante do Ministério Público. O atleta foi ouvido por cerca de seis horas no tribunal do júri do Fórum de Contagem.

Na avaliação do promotor, por não ter ocorrido confissão, a situação de Bruno é diferente da de Luiz Henrique Ferreira Romão, condenado em novembro de 2012, e que teve pena atenuada pela confissão. Henry Wagner disse que, nesse caso, a delação com relação ao Bola, não alivia a culpa do goleiro e, tampouco, traz uma redução de pena. “Nós não estamos falando de delação premiada. É uma delação simples. Ela não tem, do ponto de vista legal, nenhum efeito”, afirmou o promotor.

Porém, de acordo com o representante do Ministério Público, “o depoimento de Bruno é menos mentiroso do que o de Macarrão”. Ele destacou pontos do interrogatório, mas lembrou que não houve nada de novo. “O Bruno falou da responsabilidade do Macarrão, do contrato do Bola para executar de Eliza, do envolvimento do Jorge, da destruição da bagagem de Eliza, mas nada que seja inédito”, disse.

Outras questões novamente trazidas a tona pelo promotor foram que Bruno pode ter ido ao local onde Eliza foi entregue para morrer, e o envolvimento do policial civil aposentado José Lauriano de Assis Filho, o Zezé, no caso.

Henry Wagner avaliou que a defesa do atleta errou em algumas estratégias. No que diz respeito ao silêncio do goleiro na hora dos questionamentos da promotoria, Henry Wagner destacou que sete jurados vão decidir sobre a condenação. “Na percepção do cidadão, quem cala consente”. Outra falha apontada foi o momento em que o atleta deixa o tribunal no período reservado às perguntas de um dos advogados de Bola, Ércio Quaresma. “Esse desdém transmite uma imagem muito negativa do réu e facilita o trabalho da promotoria”, avalia.

O promotor se mostrou confiante na condenação de Bruno. “Tudo sugere que haverá uma exemplar condenação do réu”, concluiu.

Bruno e a ex-mulher Dayanne Rodrigues enfrentam júri popular por crimes relacionados ao desaparecimento e à morte de Eliza Samudio, com quem o goleiro teve um filho. O atleta responde pela morte e ocultação de cadáver da modelo e pelo sequestro e cárcere privado da criança. A ex-mulher responde pelo crime de sequestro e cárcere privado de Bruninho.

Arte estática Caso Eliza Samúdio (Foto: arte G1)Interrogatório

O goleiro Bruno Fernandes de Souza disse nesta quarta-feira (6) que aceitou o fato de que Eliza Samudio havia sido assassinada a mando do amigo Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, sem tomar qualquer atitude e sem denunciar os envolvidos no crime. “Como mandante, dos fatos, não, eu nego. Mas de certa forma, me sinto culpado”, afirmou o atleta. “Eu não sabia, eu não mandei, excelência, mas eu aceitei”, disse à juíza Marixa Rodrigues.

Ele respondeu a todas as perguntas feitas pela juíza e por seu advogado, além de pelo menos 30 questões formuladas pelos jurados. Bruno, no entanto, permaneceu calado ao ser questionado pela Promotoria e por Ércio Quaresma, advogado de policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola.

O goleiro disse que Macarrão contou a ele que contratou Bola para matar Eliza. Foi a primeira vez que Bruno implicou Bola na morte da modelo, com quem o atleta teve um filho. Até então, o policial era citado como “Neném” por Jorge Luiz Rosa, primo do jogador que era menor de idade á época do crime, que disse à polícia ter presenciado a execução da jovem.

O advogado perguntou a Bruno se achava que, quando Macarrão se referiu a Neném, queria dizer Marcos Aparecido dos Santos. O goleiro respondeu que sim e falou que ficou sabendo por meio da imprensa que Bola tinha vários apelidos, como “Neném” e “Paulista”. Ele disse que tem medo do policial.

Macarrão, em sua confissão à Justiça em novembro, disse não saber quem seria o executor de Eliza Samudio. O amigo de Bruno afirmou no júri popular em que foi condenado a 15 anos de prisão que deixou a modelo em uma rua escura e que ela entrou em outro carro.

Bruno reconheceu pela primeira vez que Eliza foi morta, culpou Macarrão pelo assassinato, negou ser o mandante do crime e disse acreditar que poderia ter evitado esse desfecho. O jogador disse que, na noite em que a modelo foi morta, Macarrão e o primo Jorge Luiz Rosa deixaram o sítio com Eliza e o bebê Bruninho, voltando mais tarde somente com a criança.

“Perguntei para eles: ‘poxa, cadê Eliza? Pelo amor de Deus, o que vocês fizeram com ela?'”, afirmou. “Neste momento, Macarrão falou assim: ‘ó, eu resolvi o problema, o problema que tanto te atormentava'”, relatou no tribunal.

Bruno e a ex-mulher Dayanne Rodrigues enfrentam júri popular por crimes relacionados ao desaparecimento e à morte de Eliza Samudio, com quem o goleiro teve um filho. O atleta responde pela morte e ocultação de cadáver da modelo e pelo sequestro e cárcere privado da criança. A ex-mulher responde pelo crime de sequestro e cárcere privado de Bruninho.

O goleiro, que na época do crime era titular do Flamengo, é acusado pelo Ministério Público de planejar a morte para não precisar reconhecer o filho nem pagar pensão alimentícia. Eliza foi levada à força do Rio de Janeiro para o sítio do goleiro em Esmeraldas (MG), segundo a denúncia, onde foi mantida em cárcere privado. Depois, foi entregue para Bola, que a asfixiou e desapareceu com o corpo, nunca encontrado.

Para a Justiça, a ex-amante do jogador foi morta em 10 junho de 2010, em Vespasiano (MG). A certidão de óbito foi emitida por determinação judicial. O bebê, que foi encontrado com desconhecidos em Ribeirão das Neves (MG), hoje vive com a avó em Mato Grosso do Sul. Um exame de DNA comprovou a paternidade.

‘Eu perdoo por tudo’
Bruno disse que não denunciou Macarrão pelo crime por “medo de acontecer alguma coisa” com as sua filhas e com ele próprio e também “pelo fato de conhecer ele há muito tempo”. Questionado pela juíza sobre quem ele temia, o atleta afirmou que era o próprio Macarrão e outras pessoas envolvidas. Sobre a relação com o amigo, condenado pela morte da modelo, Bruno disse que o perdoa. “Eu perdoo por tudo, mas ele vai cuidar da família dele e eu vou cuidar da minha família”.

‘Dayanne não sabia’
O goleiro também afirmou que a ex-mulher Dayanne Rodrigues não sabia que Eliza Samudio havia sido assassinada e que, “apesar de assustada com tudo o que estava acontecendo”, em momento algum soube da situação. “Eu falei para ela só: ‘fica com a criança para mim’. Ela perguntou o que eu estava acontecendo, mas eu quis protegê-la”, disse no interrogatório.

Três festas e futebol após o crime
O jogador contou ainda que foi a três festas e participou de uma partida de futebol com o time 100%, formado por ele e por amigos, nos dias seguintes à morte de Eliza, da qual sabia a partir de conversa com Macarrão e com o seu primo. Ele disse que na noite do crime viajou para o Rio de Janeiro e que, no dia seguinte, foi a uma festa do jogador Vagner Love e depois a outro evento, em Angra dos Reis. Dois dias depois do assassinato, ele participou do jogo do seu time e esteve em mais uma festa com os jogadores, realizada em uma casa alugada.

‘Atrapalhando na transação’Bruno retorna ao plenário para responder perguntas dos jurados em Minas Gerais (Foto: Léo Aragão/G1)

Bruno disse ainda que conheceu Eliza em uma festa, que teve relação sexual com a modelo apenas uma vez e que, na oportunidade, ela tinha se envolvido com outras pessoas”. Ele falou sobre os desentendimentos que surgiram quando ela disse que estava grávida e que a jovem passou a entrar em contato com a imprensa para falar coisas a seu respeito, o que teria atrapalhado uma transferência para o futebol estrangeiro.
“Eu estava prestes a ser contratado por equipe fora do país, então estava atrapalhando na transação essas coisas ditas [por Eliza] na imprensa”, disse Bruno. “Incomodava não só a mim mas todos que estavam a meu redor. […] As pessoas que dependiam de mim, como família, como amigos, empresário”.
O jogador falou que Macarrão ficou responsável por lidar com Eliza e que, no dia 3 de junho de 2010, o amigo chegou no hotel onde Bruno estava concentrado com o Flamengo e disse que havia trocado socos e agressões no carro com Eliza e que ela estava machucada.

Ao chegar em casa, segundo relatou no júri, Bruno viu o filho Bruninho com a ex-namorada Fernanda Castro, junto com o primo menor de idade e Macarrão. Eliza estava em outro andar do imóvel. “Ela estava lá machucada, com hematomas no rosto e na cabeça, mas não estava sangrando”.

Ele disse que surrou o primo por ter agredido a modelo, que fez um curativo na jovem e que conversou com Eliza sobre um acordo, no valor de R$ 50 mil. Ele disse que parte do dinheiro estava no sítio em Minas Gerais, motivo pelo qual a vítima viajou junto com eles na mesma noite, levando o filho. Depois disso, segundo Bruno, Macarrão colocou o plano de matar Eliza em prática, sem que ele tivesse conhecimento prévio do combinado.

Pedro Cunha

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