Quase 70% das mulheres já sofreram violência em universidades, mostra pesquisa

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(Zero Hora – 03/12/2015) Quando alunas de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) decidiram denunciar abusos sexuais nos ambientes universitários, no final do ano passado, não estavam apenas rompendo anos de silêncio, mas escancarando ao país que a cultura do estupro também impera no Ensino Superior. Em uma pesquisa inédita divulgada nesta quinta-feira, quase 70% das universitárias afirmaram já terem sofrido algum tipo de violência em espaços acadêmicos.

Encomendado pelo Instituto Avon ao Data Popular, o levantamento ouviu 1.823 universitários das cinco regiões do país, sendo 60% mulheres. Das entrevistadas, 67% já sofreram algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) no ambiente universitário. Entre os homens, 38% dos estudantes admitiram já ter praticado pessoalmente de algum tipo de violência contra mulheres em espaços acadêmicos. Diferentemente da violência doméstica, em que a Lei Maria da Penha tipifica todos os casos, o grande problema da violência de gênero nas universidades é que ela não está clara nem para quem sofre como para quem comete, segundo a presidente do Conselho do Instituto Avon, Alessandra Ginante.

Leia mais: Abuso sexual nas moradias da USP é constante e negligenciado (Jornal do Campus, 02/12/2015)

Na pesquisa, apenas 10% das mulheres afirmaram espontaneamente ter sofrido algum tipo de violência no ambiente acadêmico. No entanto, quando foram questionadas se sofreram itens de uma lista de violências, o número saltou para 67%. No caso dos homens, apenas 2% admitiram de forma espontânea ter cometido algum ato de violência. Questionados a partir de uma lista de situações violentas, 38% deles reconheceram ter praticado as ações.

— Um dos valores que a pesquisa tem é tipificar esses tipos de violência, que precisam ser combatidos — completou Alessandra.

O presidente do Data Popular, Renato Meirelles, acrescenta que o levantamento mostrou que a desigualdade de gênero não está ligada com a desigualdade social:

— Os muros da universidade não são impermeáveis ao machismo da sociedade brasileira. A violência contra a mulher não está ligada à desigualdade social, não ocorre apenas em meios de menor escolaridade — explica.

A violência de gênero nesse meio, conforme Renato, é o “berço das desigualdades sociais”. São os homens formados nas universidades que perpetuarão a desigualdade de remunerações, quando forem empregadores.

A pesquisa também mostrou que situações de violência sexual — como ter o corpo tocado sem consentimento, sofrer tentativa de abuso por estar sob efeito de álcool ou droga, ser forçada a beijar outro aluno ou ser coagida a ter relação sexual sem consentimento — foram sofridas por 28% das entrevistadas. Em festas acadêmicas, 11% delas afirmaram que já sofreram tentativa de abuso por estarem sob efeito de álcool. Entre os alunos, 27% disseram não considerar violência contra a mulher tentar abusar dela se estiver alcoolizada.

Já os casos de assédio sexual — como cantadas ofensivas e comentários de natureza sexual de alunos ou professores — foram relatados por 56% das alunas.

— Não são só os alunos. Um professor me trazia presentinhos toda aula e começou a mandar mensagem pelo celular. No dia da prova, ele sentou do meu lado e meu deu a prova mais fácil, fez de tudo pra eu entender que aquilo era um favor. Tipo… Que ele ia cobrar — afirmou uma menina aos entrevistadores.

As agressões morais ou psicológicas — ser humilhada ou ofendida por professores ou alunos, ter fotos ou vídeos repassados sem autorização ou ser colocada em “rankings” sexuais — foram sofridas por 52% das entrevistadas. As ofensas foram relatadas por 28% das alunas, figurar em “rankins” por 24% e ter fotos ou vídeos vazados por 14% delas.

A pesquisa também mostrou que 10% das mulheres sofreram violência física nos ambientes acadêmicos. — Num trote, veteranos me abordaram, me pediram para beijar um deles. Com a minha negativa, disseram que se eu não beijasse, deveria tirar meu sutiã e dar a eles. Neguei também, e começaram a me bater. Bater mesmo, com socos, e jogaram tinta no meu corpo inteiro, rasgaram meus cadernos e saíram. Ao mesmo tempo, outros veteranos abordaram uma colega, e queriam obrigá-la a tomar um copo de pinga. Como ela se negou, jogaram a bebida nos olhos dela. Isso tudo em frente à faculdade — relatou outra acadêmica durante a pesquisa.

Casos de coerção — ser coagida a tomar bebida alcoólica, ser drogada sem consentimento ou ser coagida a participar de atividades degradantes, como “desfiles” ou “leilões de mulheres” — foram vividos por 18% das alunas. Entre as entrevistadas, 12% foram forçadas a ingerir álcool e 11% obrigadas a participar de ações degradantes, situações frequentes em trotes. Dos homens, 35% não consideraram a coerção uma forma de violência.

Os casos frequentes fizeram com que 42% das alunas sentissem medo da violência nos ambientes universitários e 36% delas já deixaram de fazer alguma atividade acadêmica por isso. O levantamento ainda mostrou que 49% das alunas já foram desqualificadas intelectualmente no ambiente universitário por serem mulheres, com piadas ou sátiras de gênero. O levantamento mostrou também que, embora dois terços das alunas sofreram violência, 63% não reagiram. A maioria delas, por medo de ser exposta (61%). Das que contaram, um terço sofreu represálias, como ser hostilizada, ficar isolada ou ser exposta na universidade. — É preciso pensar uma solução para esse problema que passe pela responsabilização de todos os componentes da comunidade acadêmica — afirmou Renato.

Como foi feita a pesquisa

Dos ouvidos pelo levantamento, 76% estudam em instituições privadas e 24% em universidades públicas. Já a faixa etária da maioria entrevistados varia de 16 e 25 anos (51%) e 26 a 35 anos (35%). Eles responderam a um questionário online sobre temas como violência contra a mulher na sociedade, no ambiente universitário, atitudes consideradas violentas e a postura das instituições diante desses casos. Já as classes econômicas predominantes dos entrevistados são a média (53%) e a alta (36%).

Os dados apresentados são quantitativos e a qualitativos. Os quantitativos foram coletados exclusivamente via questionário online. Já os qualitativos contam com depoimentos online e presenciais, por meio de debates com dois grupos de discussão (um para mulheres e outro para homens). Esses índices também são frutos de entrevistas com seis pesquisadores de violência contra a mulher e coletivos feministas.

O Fórum Fale sem Medo

A pesquisa foi apresentada durante o Fórum Fale sem Medo, que ocorre em São Paulo. Criado pelo Instituto Avon, o evento é realizado há três anos e pontua a agenda nacional da campanha mundial “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. Até o ano passado, o encontro reunia apenas formadores de opinião e especialistas. Este ano, teve as portas abertas ao público.

Fernanda da Costa, de São Paulo (A repórter viajou a São Paulo a convite da organização do evento)

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