Quatro em cada cinco mulheres já foram abordadas de maneira agressiva em lugares públicos (R7 – 18/02/2016)

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Cantadas violentas não ocorrem só no Carnaval. E os homens ainda acham que é normal

Elas se tatuaram, criaram cartilhas de conscientização para um Carnaval livre de agressões, adotaram o apito como arma de denúncia, mas nem toda essa mobilização foi capaz de reduzir os casos de assédio contra mulheres nos dias de folia.

A abordagem agressiva é cotidiana: 3 em cada 10 já foram até beijadas à força (Foto: Fotos Públicas)

Em todos os grandes centros carnavalescos do País, como Rio, São Paulo e Salvador, foram relatados registros de violência contra mulheres, 461 deles só na capital baiana. A abordagem masculina feita de forma agressiva, que fica mais evidente no Carnaval, é, na verdade, um problema cotidiano.

Pesquisa realizada pelo Data Popular, com apoio do Instituto Avon, revela que quatro em cada cinco mulheres jovens já receberam cantadas violentas ou foram abordadas de maneira agressiva em festas ou lugares públicos, o que inclui o Carnaval de rua.

Segundo o levantamento, quatro em cada dez jovens também já tiveram o corpo tocado por um homem sem ter autorizado. Três em dez disseram que foram beijadas à força.

Fica evidente que muitos homens têm dificuldade para entender que, quando uma mulher diz “não”, ela quer dizer “não”. E, às vezes, alguns acabam passando dos limites e até agredindo a mulher.

Medo da rejeição

Diretora-executiva da revista Azmina e uma das criadoras da campanha #carnavalsemassedio, Nana Queiroz acredita que o machismo é uma característica de homens inseguros. E, para um homem inseguro, a única maneira de “ter” uma mulher é controlá-la.

— Para esses homens, ter que paquerar em vez de assediar é muita exigência ao ego frágil deles. Eles têm medo da rejeição. São esses os que reagem contra a emancipação feminina porque, no fundo, têm medo. Isso não é um gesto de coragem, mas um gesto de profunda covardia.

Babi Souza, criadora do movimento Vamos Juntas?, vai além. Para ela, os homens não acham que essa abordagem violenta seja eficaz; eles apenas acham que têm esse direito.

— Continuam agindo assim pois a sociedade ainda não entendeu que o corpo da mulher é dela. Eu vejo como esse sendo o ponto alto do feminismo atual: lutar pelo direito à posse do próprio corpo e da própria vida.

Apito contra Assédio, uma das campanhas que mobilizaram as mulheres no Carnaval (Foto: Reprodução/Facebbok)

Para Babi, a questão do assédio é tão polêmica por mostrar que os homens, de forma geral, são violentadores, algo que a pesquisa da Data Popular reforça com números.

— Foge da ideia de que o abusador é distante (estereótipo do estuprador, do criminoso) e passa a abranger a grande parte dos homens.

Na opinião da jornalista Nana Soares, que participou da elaboração da campanha do Metrô de São Paulo contra assédio sexual, a maioria dos homens também não entende que aquela abordagem é assédio, é violência.

— Por ser uma questão naturalizada na nossa sociedade, pode não ser vista como a abordagem ideal, mas também não é encarada como condenável. Isso só reforça como precisamos repensar a maneira pela qual educamos os meninos. Por mais que as mulheres estejam empoderadas, violência só para de acontecer quando o agressor muda de postura, e não a vítima; precisamos urgentemente educar os meninos para respeitar as mulheres.

Daniel Madeira é personal paquera e trabalha exatamente treinando rapazes para que aprendam a abordar uma mulher. Para ele, muitos homens insistem nesse tipo de atitude por uma questão cultural.

— É  um mecanismo primitivo do homem. A sociedade sempre pregou que isso era bonito, eles foram criados para chegar na mulherada, mas hoje está mudando. Mas essa mudança não acontece de uma hora para outra.

Madeira ressalva que não se pode generalizar. Segundo ele, existem homens que fazem isso, mas não são todos.

— Quando ele não consegue o que quer, compra a ideia de que a garota, por estar dançando de forma sensual, ou estar vestida com determinada roupa, ou que tenha bebido, está disponível. Muitos homens ainda pensam assim.

É fato. Levantamento do Data Popular, que revelou que para 61% dos homens uma mulher solteira que vai pular Carnaval não pode reclamar de ser cantada e que bloco de Carnaval não é lugar para mulher “direita”, também apontou que para 70% dos homens as mulheres se sentem felizes quando ouvem um assobio, 59% acham que as mulheres ficam felizes quando ouvem uma cantada na rua e 49% acreditam que as mulheres gostam quando são chamadas de gostosa.

Quando elas reagem mal, afinal essa crença masculina está longe de condizer com a realidade, muitos homens partem para agressão, principalmente verbal.

Daniel Madeira considera uma fraqueza emocional da parte dos caras.

— Ele não consegue o que quer e reage xingando a menina. Acontece muito isso… tem homem que tem dificuldade com mulheres, mas em vez de assumir isso como um fracasso, ele transfere a culpa para mulher. Não admite que não tem competência.

O personal paquera minimiza, e acredita que a maior parte das abordagens agressivas é feita sob efeito de álcool. Mas pondera que isso não é desculpa.

— Paquerar não é errado. Mas é como dirigir, você pode dirigir, mas tem de seguir as regras de trânsito. A regulamentação no flerte  é o bom senso. Se você extrapolar no suposto xaveco, se virar um assédio sexual, vai ter de responder de alguma maneira.

Também especialista em relacionamentos, Caio Cesa, autor do guia Segredos dos Homens, diz ser completamente contra qualquer tipo de abordagem que seja desrespeitosa ou invasiva, na qual o espaço e os limites estabelecidos pela outra pessoa não são respeitados.

— Serve para ambos os sexos, pois respeito é para ambos.

Em sua avaliação, ainda que não seja possível generalizar, uma vez que existem homens que abordam mulheres de maneira respeitosa, infelizmente ainda há muitos outros que acabam extrapolando na maneira de abordar uma mulher.

— Alguns são inseguros, outros têm problemas com rejeição, outros querem impressionar os amigos, outros realmente não enxergam que estão sendo inconvenientes, e muitos, simplesmente, não tiveram educação.

Homens conscientes

Nas redes sociais, a questão do assédio masculino começa a despertar a atenção de homens que entendem que está na hora de mudar esses conceitos de normalidade.

Um internauta, identificado como Jair, deixou um comentário contundente sobre o caso de abordagem agressiva relatado por uma cliente do bar Quitandinha, em São Paulo.

— Todo homem vai a um bar para desopilar e paquerar, com a devida obediência a determinados valores. Esses “machos” que agrediram as garotas são o espelho do atual comportamento de muitos, infelizmente maioria: acham que toda e qualquer mulher está disponível. E se acham verdadeiros “dom juan”. Infelizmente, sem a percepção de que a mulher tem o direito de recusar quando cortejada. Não passam de babacas travestidos de homem. Ser homem é ser cavalheiro, é respeitar o próximo, a próxima e as outras identidades. Ser homem, babacas, não é beijar e pegar todas. Ser homem é entender que as mulheres, há muito, já conquistaram também o direito de ir e vir e, principalmente, de desopilar e paquerar, sem que isso as tornem menos digna. Ao contrário, são ainda mais dignas, pois hoje assumem papéis que esses “machões” se desobrigaram.

O episódio também motivou uma postagem esclarecedora nas redes sociais, feita pelo jornalista Diego Junqueira, do R7. Segundo ele, todo mundo sabe como funciona o approach “Homem babaca em cima de mulher”, como aqueles que puxam mulher à força para beijar.

— É assim que funciona para os assediadores. Muitas vezes eles vão em trupe, rindo das puxadas, agarrões e da contagem. Algumas resistem. Outras resistem e cedem. O grau de violência é variado. Alguém perguntou se ela queria ser agarrada à força?

Mesmo quando não há o contato físico, Junqueira destaca a postura de “Dono do Mundo” de muitos caras.”Por que não posso olhá-la de cabo a rabo?”. Alerta que desacreditar a vítima é justamente uma das formas de se legitimar o assédio. E deixa uma dica que parece óbvia.

— Você nunca viu uma dupla de homens sentada em mesa de mulher pra puxar conversa? Se elas permitiram, ok! Se não, vaza! Não tem conversa! Incomodou, vaza! Se antigamente “podia”, hoje não pode mais. Não é uma patrulha. É uma coisa errada que sempre aconteceu, continua acontecendo, mas que não deveria acontecer.

Deborah Bresser

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