Rede feminista com 500 mulheres usa o grafite contra a violência doméstica (Folha de S. Paulo – 19/11/2015)

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No pátio da escola Maestro Pixinguinha, na zona norte do Rio, um grupo de alunos do 9º ano manejam latas de spray e pincéis para colorir o muro interno com mensagens contra a violência doméstica.

Pouco antes, Ana, 14, Renata, 15 e Paula, 14, (nomes fictícios) estavam reunidas na oficina promovida pela Rede Nami para debater questões de gênero.

Ao final, as estudantes se dirigem à assistente social para fazer uma denúncia de abuso. “Todo dia quando o pai da nossa amiga a traz para escola, ele dá um beijo na boca dela. Meu pai não faz isso”, incomoda-se uma delas. O caso foi encaminhados ao conselho tutelar.

Situações como essa são rotineiras no trabalho de campo que a Nami, associação sem fins lucrativos, que usa as artes urbanas para promover os direitos das mulheres, já realizou em mais de 40 escolas públicas do Rio.

Formalizada em 2012 por um grupo de 30 feministas, a rede de grafiteiras tem a artista plástica Panmela Castro, 34, como líder e 500 integrantes de várias partes do país.

Um grupo de mulheres engajadas para tentar mudar um cenário desafiador: cinco mulheres são espancadas a cada dois minutos no Brasil, de acordo com dados da Fundação Perseu Abramo, de 2011. É no ambiente doméstico que acontecem 27,1% dos homicídios de mulheres, de acordo com Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil.

Para atuar nesse campo minado, a Rede Nami promove as oficinas do projeto Grafite pelo Fim da Violência Doméstica Contra a Mulher.

Comandadas por Panmela e grafiteiras capacitadas pela Nami e com a participação de uma assistente social, os encontros duram uma hora.

O bate-papo aborda percepção de gênero, tipos de violência e ferramentas da Lei Maria da Penha, marco legal para responsabilização de agressores. Os temas são depois transpostos para os muros como atividade final da oficina. “O grafite é uma solução nova para antigas demandas, é revolucionário, é como a arte sempre foi usada”, diz Panmela.

A iniciativa de Panmela tem o “carimbo” de aprovação de Maria da Penha, farmacêutica bioquímica que inspirou “a carta de alforria das mulheres brasileiras”, como a cearense define a regra.

“A Nami se utiliza da arte urbana para, em um primeiro momento, esclarecer sobre a história da submissão da mulher durante séculos”, considera Maria. “Depois multiplica os conhecimentos através da arte dessas mulheres, agora mais conscientes sobre os direitos que nós temos de viver numa sociedade com equidade de gênero”, completa.

IMPACTO

De 2012 a 2014, 5.000 pessoas participaram das oficinas. Outras 50 mil foram impactadas por campanhas via internet. O total é de 5.000 m² muros grafitados em ações da Nami, processo no qual foram consumidas cerca de 5.000 latas de spray.

Muitas delas manejadas por Alexandra Fonseca, 41, a Mel Graffiti. Abusada sexualmente por um vizinho dos 10 aos 16 anos, ela se redescobriu na arte urbana.

“Eu me libertei dessa situação e passei a falar sobre há pouco tempo, após entrar na Nami e estudar sobre a Lei Maria da Penha”, conta. “O grafite mudou a minha vida.”

E de outras companheiras de rede. “A Nami dá oportunidade para as mulheres terem independência. Elas têm a autoestima de volta, são abraçadas e valorizadas”, diz Alexandra.

A ONG mantém um diálogo ativo também com o poder público. “Sugeri que a Prefeitura do Rio criasse um decreto que determinasse os espaços na cidade onde os grafiteiros poderiam intervier de forma livre”, conta Panmela. Desde 2014, colunas, muros (que não sejam de patrimônio histórico), paredes cegas, pistas de skate, postes e tapumes de obras são livres para os artistas de rua.

Quem passa ao longo da linha 2 do metrô, pode ver os efeitos da norma. É na extensão desses 40 km, em Irajá, zona norte do Rio, que mora e grafiteira Jennifer Borges, ou simplesmente J-Lo, 27.

Formada em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF), ela integra o Afrografiteiras, projeto de promoção do protagonismo de mulheres negras.

Por meio do programa da Nami, J-Lo teve duas obras expostas na Galeria Scenarium, no Rio, uma delas, a mais cara, à venda por R$ 10 mil. “Sempre quis ser artista, mas nunca imaginei que uma menina preta, pobre, periférica e sapatão conseguiria um dia estar em uma galeria de arte.”

Olívia Freitas

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