Registros de estupro quase triplicaram no Brasil em cinco anos (Jornal Hoje – 18/05/2013)

Comportamento das vítimas e mudança na legislação contribuíram para o aumento. Denúncias devem ser feitas às delegacias da mulher.

“Ele chegava bêbado, me agredia primeiro, perguntava se tinha comida feita e mandava eu tirar a roupa”.

“É ruim de ficar lembrando o que ele fez comigo. Isso não foi certo. Ele sabe muito bem que não foi certo, o que ele fez é errado”.

Os depoimentos são de jovens que foram estupradas por pais, irmãos, tios, pessoas em quem deveriam confiar. Elas vivem em uma casa, que acolhe vítimas de violência sexual, em Salvador.

“Se ele não me trouxesse pra cá, eu ia ficar na rua, porque lá na casa do meu pai eu não queria ficar, minha mãe não gosta de mim. Minha avó também não gosta de mim”.

Elas recebem roupas, alimentação e assistência psicológica. Muitas, que tinham parado de estudar, voltaram à escola. “Ter uma vida melhor, ter, mais pra frente, se deus me ajudar, ter minha casa, minha família, meus filho”.

Hoje, 120 jovens vivem na casa. A procura dobrou nos últimos anos, acompanhando o aumento do número de denúncias desse crime. Um estudo revela: as denúncias de estupro saltaram de 15.351 para 41.294, em cinco anos.

Para a polícia, o principal motivo desse aumento foi a mudança na legislação brasileira em 2009. Antes, a lei só considerava estupro a relação sexual consumada, sob ameaça ou violência.

Com a alteração na lei, qualquer tipo de carícia forçada, que anteriormente era enquadrado como atentado violento ao pudor, também passou a ser caracterizado como estupro.

“Um beijo lascivo, toque nas partes íntimas dessa mulher, desde que esse toque e esse beijo tenham ocorrido através de violência ou grave ameaça, pode, sim, ser entendido como estupro já”, explica Ana Virgínia Paim, delegada.

No ano passado, a polícia recebeu mais de 600 denúncias em Salvador. Muitas vítimas procuram as delegacias de atendimento à mulher, mas nem todas aceitam falar.

Nós encontramos em um centro de referência, mantido pela prefeitura, mulheres dispostas a conversar sobre as agressões. Elas se reúnem, compartilham experiências, procuram juntas um caminho de superação. Para elas, tão importante quanto buscar apoio, é não se calar.

“Tem que denunciar mesmo, os violentadores querem nos amedrontar para continuarem fazendo. Se a gente lutar e buscar, realmente, mostrar o que está acontecendo, a gente vai conseguir. Agora, se nós cruzarmos os braços, não vamos ter retorno”.

As denúncias de estupro e agressão devem ser feitas às delegacias da mulher. Veja aqui uma lista de delegacias, contatos de disque-denúncia e centrais de atendimento.

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