Responsável por apurar abusos na EACH diz que USP “falha” em relação a trotes (Brasil Post – 28/04/2015)

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As denúncias de pelo menos cinco estupros ocorridos na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP) já são de conhecimento da direção da faculdade. A informação foi prestada ao Brasil Post pelo professor José Renato de Campos Araújo, coordenador da Comissão de Defesa da Diversidade, Direitos Humanos e Democracia da EACH.

De acordo com o Diretório de Estudantes (DCE) e com o coletivo feminista Maria Sem Vergonha, os cinco casos de abusos sexuais teriam como autor um único estudante, também da EACH. Segundo Araújo, a diretora da escola Maria Cristina Motta de Toledo o indicou para acompanhar o caso por meio da comissão que ele coordena, criada no começo deste semestre na instituição.

“A direção acionou professores de áreas como os direitos humanos e outras para que atuemos em casos como esses. Tomamos conhecimento do que aconteceu na semana retrasada, quando alunos tentaram espalhar cartazes na unidade, denunciando os abusos de cinco meninas por um aluno, fora do ambiente da EACH é importante dizer. A comissão já fez contato com os alunos e pedimos um contato formal das vítimas, para que possamos instalar um procedimento”, disse Araújo ao Brasil Post.

As ocorrências registradas na EACH relembram as muitas denúncias de estupros feitas na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), as quais motivaram até a criação de uma CPI na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O relatório final da comissão parlamentar aponta a suspeita de mais de 110 abusos sexuais ocorridos na FMUSP nos últimos dez anos. Muitos desses casos, como se sabe, jamais foram formalmente denunciados pelas vítimas.

Ao Brasil Post, o coletivo feminista Maria Sem Vergonha informou que “o melhor jeito de encaminhar as denúncias” ainda está sendo definido junto às vítimas da EACH. O cuidado é justificado: em situações semelhantes na FMUSP e em outras faculdades, como na Veterinária, os nomes das envolvidas vieram a público e não foram poucos os relatos de humilhações e outras violações de direitos humanos posteriores aos ataques sofridos.

Para o professor Araújo, casos como esses mostram como a vítima “se sente mais violentada ainda no momento da denúncia”, por isso é necessária não só a denúncia formal, mas muito cuidado com a forma com que o acolhimento e a posterior investigação sejam feitas. Na última sexta-feira (24), professoras da USP realizaram uma reunião e criaram uma rede própria de apoio às vítimas de violência sexual na instituição.

O coordenador da área de direitos humanos da EACH afirmou estar em contato com essas professoras e prometeu que, tão logo seja aberto um procedimento para análise dos cinco casos, uma resposta apropriada será dada. “Alguns casos que acompanhei pela imprensa foram feitas denúncias e não aconteceu nada. Temos que ter cuidado para garantir a segurança da vítima, sem isso o processo não vai para frente”, comentou.

‘USP deu poucas respostas’

Questionado sobre a sua análise da postura da USP acerca dos muitos casos de estupro e outras violações, como racismo e homofobia, Araújo explicou que a universidade não tinha muitos mecanismos no passado para dar resposta às denúncias, porém afirmou que a alegação de ‘desconhecimento’ no que diz respeito aos trotes, por exemplo, não se sustenta.

“Os direitos humanos são discutidos há muito tempo na universidade, que deu poucas respostas. Na questão dos trotes violentos, por exemplo, é uma falha da universidade há décadas. Há muito sabe-se que existem, lembre-se daquele caso infeliz da morte de um aluno na FMUSP, e não aconteceu nada. Acho que a USP falha, é uma crítica que faço. Apesar de casos graves, nunca lidou de forma adequada, nunca agiu para acabar com esse tipo de coisa. Acho lamentável”, ponderou o professor.

Araújo comentou ainda que, no que diz respeito ao seu trabalho, a comissão irá indicar em um prazo de até 20 dias qual é o melhor caminho para apuração dos estupros na EACH. “A ideia não é criar uma nova burocracia, mas sim começar a ter ação junto às vítimas, a fazer o acolhimento. Esses órgãos burocráticos não são pensados para isso, por isso a vítima acaba vendo a instituição como inimiga”, concluiu.

Thiago de Araújo

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