Rosângela: vítima de tentativa de feminicídio, ela compartilha sua história para ajudar outras mulheres (O São Gonçalo – 16/08/2016)

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No país em que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada, São Gonçalo aparece entre os que mais registram violência contra o gênero no estado. Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio revelaram que pelo menos 20 mulheres procuram diariamente as delegacias do município para denunciar casos de ameaça, agressão, lesão corporal e estupro.

Em 2015, 19 delas foram mortas por aqueles que se diziam seus companheiros, mas acabaram se revelando seus algozes. No mês em que a Lei Maria da Penha completa 10 anos, OSG publica, até o próximo sábado, a série de reportagens ‘Minhas Marcas’, que conta a história de mulheres que, com a ajuda do Movimento de Mulheres de São Gonçalo, conseguiram romper com o ciclo de violência atroz, que deixa marcas no corpo, na mente, na alma…

Com o corpo em chamas, Rosângela luta pela vida rolando de um lado para o outro numa rua de chão batido do bairro Salgueiro, em São Gonçalo. Enquanto o fogo ainda a consome, o homem com quem viveu durante 21 anos – e teve duas filhas, que assistiam àquela cena – fugia com uma garrafa de gasolina nas mãos.

Durante 20 minutos, o combustível continuava a queimar seu corpo, a partir da boca. Sem entender ao certo o que estava acontecendo, Rosângela recebia ajuda da filha mais velha, de 19 anos, para apagar as chamas. A mais nova, de 17, assistia a tudo sem conseguir agir. Os vizinhos tentavam acalmar a vítima, que continuava a pedir a Deus para não morrer.

A noite daquele dia 4 de abril de 2009 poderia ser a última na vida vendedora Rosângela Maria Sá, de 48 anos, mas acabou virando um recomeço. Após dois meses internada em estado gravíssimo – sendo submetida a três grandes cirurgias, sequelas físicas e milhares de marcas pelo rosto e corpo -, Rosângela usa sua história para encorajar outras mulheres a romperem a teia de violência doméstica.

“Ele chegou lá em casa e, sem avisar, entrou no banheiro. Eu não queria confusão e achei que ele fosse embora. Mas, rapidamente, ele apertou uma garrafa com gasolina em cima de mim. O combustível escorria pela minha boca quando ele apertou o isqueiro e tudo explodiu. Não tive tempo para nada, virei uma tocha humana. Em segundos, pensei nas minhas filhas e na minha mãe. Eu não queria morrer e sabia que precisava sair de casa para não ser pior. Corri pra rua e rolei no chão para tentar apagar o fogo, como vi certa vez num filme. Quando consegui, percebi que a roupa queimada estava colada no meu corpo quase nu, sem pele. Eu nunca tinha sentido tanta dor em minha vida”, recorda emocionada.

Engana-se, no entanto, quem pensa que Rosângela conviveu com violência física ao longo do relacionamento. Foram três anos de namoro e 21 anos de casamento sem brigas. Até a noite trágica, não havia existido qualquer tipo de violência que despertasse nela sinais sobre a capacidade de violência do homem que dormia ao seu lado todos os dias.

“Ele sempre foi muito quieto. Eu me privava das coisas que gostava para não magoá-lo. Eu sofria violência e não sabia. Por isso que hoje falo sobre todos os tipos de violências. As marcas físicas que carrego são marcas de uma luta que venci. Mas existem mulheres que carregam marcas psicológicas, que não são vistas”, explicou.

Rosângela conheceu Walmir dos Santos Francisco quando tinha 17 anos de idade. Ele, com 23, era seu primeiro namorado sério. Com três anos de relacionamento, ela descobriu que seu companheiro já tinha dois filhos. Em 1988, após algumas separações, os dois decidiram casar. “Agora seria diferente”, pensou a mulher.

Contudo, duas décadas depois, ela percebeu que se esforçava sozinha para criar as duas filhas e resolveu romper o relacionamento. “Depois que completei 40 anos, pensei bem no que eu queria para minha vida. E percebi que não era mais feliz ao lado dele”, disse.

Primeira separação. Não houve despedidas. Rosângela chegou em casa e não encontrou o parceiro. Dois meses depois, e promessas de mudanças, o casamento é retomado. “As coisas pioraram depois que ele voltou. Passou a não ter hora para chegar em casa e a não dar satisfação. Não brigava, não gritava, mas também não explicava o que estava acontecendo. Pedi novamente para ele sair de casa”, relembrou.

Seria o recomeço, mas a indiferença da ex-mulher despertou o inconformismo de Walmir, que passou a perseguir a ex-companheira até no trabalho. “Ele dizia que poderia atentar contra a própria vida e que não tinha medo da polícia. Nunca senti medo, pois ele nunca foi agressivo. Até noite em que ele ateou fogo em mim e me deixou com 65% do corpo queimado”, afirmou.

Durante o período de internação, Rosângela recebeu a visita das profissionais do Movimento de Mulheres. Foi o primeiro contato dela com a entidade, que mudaria para sempre sua vida. “Elas orientaram minha filha a denunciar o próprio pai. Ajudaram com o meu tratamento, me apresentaram cirurgiões que cuidam de mim até hoje. Por isso vejo muita importância em falar, para que outras mulheres conheçam esse trabalho e saibam como ter ajuda. Eu não me senti sozinha em momento algum”, emocionou-se.

E foi com a ajuda do Movimento de Mulheres e da juíza Patrícia Acioli que Walmir acabou preso na casa de familiares, em Minas Gerais. No dia 19 de agosto de 2011, uma semana após a magistrada ser assassinada em São Gonçalo, o pedreiro foi condenado a 26 anos de prisão e cumpre a pena até hoje. “Eu tive medo quando não vi a juíza durante o julgamento. Ela me deu muito apoio durante todo o processo. Precisei ser retirada do julgamento quando percebi que ela não poderia estar lá para interceder por mim”, lembra.

Mas Rosângela não esmoreceu e, assim como a Fênix, renasceu das cinzas. Hoje, ela ministra palestras contando sua história para mulheres vítimas de violência. “Sou bem mais feliz agora”, finalizou.

Acesse no site de origem: Rosângela: a Fênix que renasceu das cinzas (O São Gonçalo – 16/08/2016)