RS tem média de 3,9 estupros por dia em dois anos, apontam dados da SSP (G1 – 27/01/2017)

Em 2016, foram denunciados 1.425 casos no estado, diz levantamento. Números nem sempre refletem a realidade porque muitas não denunciam.

Entre os números da violência no Rio Grande do Sul apresentados pela Secretaria da Segurança Pública na quinta-feira (26), um é particularmente assustador: Acontecem quase 1,5 mil estupros por ano no estado. Em 2015 foram denunciadas 1.426 ocorrências do tipo. No ano passado, o número foi de 1.425.

Ou seja, nos últimos dois anos, a polícia registrou 2.851 estupros. É uma média de 3,9 casos por dia. E um a cada seis horas, durante dois anos seguidos. Os números são oficiais, mas nem sempre representam a realidade. Isso porque a maioria das vítimas ainda tem medo de denunciar.

Dentro de cada um dos inquéritos abertos na Delegacia de Polícia de Porto Alegre, há histórias que revoltam.

“A vítima foi estuprada por diversas vezes pelo acusado, seu pai biológico”, diz o trecho de um deles. “O acusado agarrou a vítima e tentou beijá-la a força”, consta em outro documento.

“Aos 13 anos, o pai lhe levou para um hotel e lá teve a primeira relação sexual. O pai lhe falava que era normal os pais terem relações sexuais com as filhas”, está escrito em mais um deles.

Para a delegada Clarissa Demartini, muitas mulheres sofrem caladas e não conseguem denunciar os crimes a que são submetidas.

“O crime de estupro eu acredito que seja uma das maiores violências físicas e psicológicas à integridade da vitima, então muitas vezes denunciar é reviver tudo aquilo”, observa. A delegada ressalta: o estupro vai além de um ato sexual forçado. Na maioria das vezes, o agressor é o marido, o namorado ou um parente próximo.

“O estupro é o que acontece independente da relação que a vítima estabelece com o agressor, então a gente vai ter estupro entre pessoas estanhas e o estupro também vai acontecer dentro de relações que são afetivas e que são consentidas”, frisa ela.

“Um casal onde, por exemplo, o marido força a mulher a ter relações sexuais também é estupro. O que a gente precisa para configurar o estupro é a negativa de uma das partes”, explica.

Por se sentir desprotegida quando caminha sozinha na rua, a jornalista gaúcha Babi Souza, de 26 anos, criou o movimento “Vamos Juntas”. Ela recebe mais de cem relatos por mês de vítimas de estupro que se sentem desamparadas e até culpadas por sofrerem esse tipo de agressão.

“A gente recebe muitos relatos de mulheres que dizem: ‘meu pai ficou sabendo e disse tal coisa, mas o que mais me doeu foi a minha mãe, foi a minha irmã, foi a minha amiga’. Elas pensam: ‘poxa, se ela que é mulher acha que a culpa foi minha, então a culpa deve ser minha mesmo’. É muito triste”, comenta ela.

Entre as cidades que aparecem com o maior número de registros, quatro estão na Região Metropolitana.

“Uma das grandes dificuldades que a gente tem no trato dos crimes sexuais é a questão que a mulher normalmente se sente envergonhada pelo que passou. As mulheres devem se dar conta de que a situação não é de vergonha delas, a vergonha é do agressor que não foi homem o suficiente para respeitá-las. Então elas têm que se empoderar e procurar a delegacia, de modo que essa pessoa seja punida e não repita esse tipo de fato”, afirma a secretária-adjunta da Segurança de Porto Alegre, Cláudia Crucius.

Segundo ela, a Guarda Municipal vai começar a receber treinamento para ajudar as vítimas.

Roberta Salinet

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