Santa Catarina já registrou mais de 60 feminicídios até agosto deste ano (Engeplus – 23/11/2018)

Entre janeiro e agosto deste ano foram registradas 12.607 lesões corporais dolosas

O número de feminicídios cresceu em Santa Catarina. De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Estado da Segurança Pública, entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados 62 feminicídios, 102 homicídios dolosos tentados, 2.155 estupros consumados, 403 estupros tentados, 12.607 lesões corporais dolosas, 15.844 ameaças, 326 calúnias, 1.184 danos, 931 difamações e 5.734 injúrias.

Feminicídios são diferentes de homicídios. Feminicídios são mortes de mulheres em razão do gênero. Já o homicídio é uma ação de matar qualquer ser humano.

Segundo relatório do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) de outubro deste ano, no Estado, são mais de 36 mil processos em andamento decorrentes de violência doméstica, violência doméstica contra a mulher e feminicídio. Foram concedidas, entre janeiro e outubro de 2018, mais de 7.500 medidas protetivas, sendo que, em andamento, são quase 14 mil medidas protetivas em todo o Estado.

Todos esses números assustam a desembargadora Salete Silva Sommariva, titular da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). “A mulher tem ganhado voz todos os dias. A mulher tem tido visibilidade e talvez essa visibilidade faça com que os números apareçam mais que antigamente. Trabalhamos todos os dias com programas contra a violência doméstica, com palestras. É preciso educar e mostrar onde estão os erros”, ressalta.

“A mulher era tida como objeto em casa por muito tempo. Muitos homens acreditavam, e alguns ainda acreditam, que as mulheres são para servi-los e isso não existe. 90% dos agressores assistiram os pais agredirem. Por isso a prevenção nas escolas. Por isso palestras com estudantes, professores, gestores, enfim. É preciso educar e mostrar aos mais novos onde está erro. São sementes que estamos plantando e colheremos ao longo prazo”, observa.

A desembargadora comenta que é preciso saber diferenciar um homem agressivo. “Eles acham que são os donos da mulher e é isso que temos que combater. Ele agride e depois agrada. O agressor tenta separa a mulher de pessoas que ela gosta. Ele critica as roupas, o corpo e depois entrega um buquê de flores e diz que vai mudar, mas não é assim. São questões psicológicas, a mulher precisa detectar e buscar ajuda”, explica.

Ainda segundo Salete, o agressor precisa de tratamento psicológico. “Isso não vai mudar em curto prazo. O homem agressor pode ter 20 mulheres e ele vai agredir as 20. Não é algo com uma mulher especifico, será com todas que tiverem uma relação com ele, por isso, o tratamento psicológico”, detalha.

Mesmo com as medidas protetivas, e com a lei ao lado das mulheres, muitas vítimas possuem medo de denunciar seus companheiros pelas agressões sofridas. “Cada mulher conhece seu marido, seu companheiro, enfim a pessoa que vive ao seu lado. Ela apanhou uma vez, duas e milhares de vezes, recebeu diversas ameaças. Ela sabe que se denunciar, o homem poderá voltar e matá-la. É nesse processo que a lei precisa ampará-la e também o homem precisa de um tratamento psicológico para não cometer o crime”, afirma.

“Condenamos muitas vezes as mulheres que retiram as denúncias, as que apanham e não denunciam, mas ninguém sabe como o psicológico da vítima está afetado. Muitas vezes essa mulher nunca trabalhou porque seu companheiro não deixou e ela é totalmente dependente. Não acredito que a mulher goste de apanhar. Precisamos ajudar”, declara.

A desembargadora observa que a Lei Maria da Penha fez com que os crimes contra mulheres reduzissem de 10 a 15%. “A sociedade acordou, a sociedade está se movimentando. O grupo de mulheres que trabalham em diminuir os números é imenso. O Tribunal de Justiça, a OAB, órgãos estaduais, prefeituras, Universidade Federal estão formando redes para dar atendimento a mulheres que são agredidas. As mulheres passaram a ter coragem para denunciar. A lei Maria da Penha é um marco histórico. Com essa lei, os homens não foram mais penalizados com pagamento de cestas básicas. Mas preciso frisar que existem homens que também aderiram à causa das mulheres. Existe um movimento muito grande que se chama ‘Eles por Elas’. A consciência chegou. Não é porque a mulher usa uma saia curta que merece ser torturada”, considera.

“Tem que denunciar porque se não nunca vamos acabar com a violência”

A desembargadora comenta que qualquer pessoa pode denunciar uma violência doméstica e não se pode fechar os olhos para este tipo de crime. “A nossa obrigação hoje é denunciar. A primeira vez talvez não tenha resultado, mas a segunda vez com certeza. Com uma denúncia pode se evitar uma morte. Tem que denunciar porque se não nunca vamos acabar com a violência”, declara.

“É um trabalho passo a passo e não podemos sonhar que teremos uma resposta a curto prazo, temos um longo caminho a ser percorrido. Mas, caso não fizermos esse trabalho a violência vai acontecer cada vez mais”, finaliza.

Por Rafaela Custódio

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