Sexo, estupro e purificação, por Lia Zanotta Machado (2000)

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“O desafio deste trabalho é contrastar , em cenários de envolvimento em situação de estupro, os olhares masculinos e os olhares femininos. Até que ponto compartilham de um mesmo imaginário? Até que ponto se afastam nos seus sentidos inversos? O material para a minha reflexão sobre os olhares femininos será a centralidade da etnografia de um personagem feminino, Maria, entrevistada através de contatos com liderança comunitária, três outros casos de agredidas sexuais entrevistadas junto à Delegacia das Mulheres do Distrito Federal, e dois casos de agredidas por lesões corporais, que nos contam das agressões sexuais dos companheiros.

A reflexão e a análise sobre os olhares masculinos terá por referência, a leitura do comportamento do agressor de Maria, tal como por ela relatado , entrevistas com dois agressores denunciados e contatados na Deam/D.F., e relatos de nove apenados por estupro na prisão da Papuda.

(…)

A proposta metodológica, é captar a construção social e cultural do estupro na contemporaneidade da cultura brasileira, e os lugares simbólicos onde se inscrevem as construções dos gêneros masculino e feminino ; assim como a configuração dos investimentos subjetivos , articulando as linguagens das moralidades compartilhadas com a elaboração psíquica e subjetiva das vontades e dos desejos.

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Estupro e rituais de purificação e de reparação O meu desafio é trabalhar com os paradoxos que envolvem o estupro e com o que chamo de transformismo da noção de estupro. O paradoxo que envolve o estupro é ter de um lado , o sentido do estupro como um ato ignominioso, e , de outro, o sentido de que o estupro só torna impuras as mulheres. Ao forte sentido de ato hediondo, aderem, não só o senso comum , mas os próprios estupradores. As expressões por eles utilizadas variam entre “crime nojento” e a ação que só pode ser feita por um “cara muito doido, cheio de coca na cabeça” (entrevistado “A”), “um cara que só pode ser doente mental porque do jeito que tem mulher caindo encima, estuprar para quê ? (entrevistado “B”), “ um cara que fosse certo não faria uma coisa dessas” (“D”), “um homem que não anda com Deus, só pensa nas coisas materiais da vida, vem uma força e o domina e o leva a estuprar”(“E”). Somente “C” é quem define o estuprador de uma forma mais próxima à da legislação vigente : “aquele que pega mulher na rua e força a transar com ele”. ”

Lia Zanotta Machado é professora Titular de Antropologia da Universidade de Brasilia , Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher (NEPeM/UnB), Dra. em Ciências Humanas , USP, 1980 e Pós-doutorado (CNPq) no Institut de Recherches sur les Sociétés Contemporaines (IRESCO) e na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), Paris (1992-1994).
Nota: Este texto está publicado em Suárez, Mireya e Bandeira, Lourdes (orgs.) Violência, Gênero e Crime no Distrito Federal, Brasília, Ed. UnB e Paralelo 15, 1999.

Acesse na íntegra em pdf: Sexo, estupro e purificação, por Lia Zanotta Machado (2000)