Small Arms Survey: Brasil registra o terceiro maior número absoluto de assassinatos de mulheres no mundo

Uma pesquisa divulgada pela Small Arms Survey, entidade de referência em pesquisas sobre homicídioscolocou o Brasil em um destaque perverso mais uma vez: o país registrou 5,7 mil mortes mulheres e meninas no ano passado, o que representa o terceiro maior número no mundo todo – atrás apenas da Índia (10,7 mil mortes violentas femininas) e da Nigéria (6,4 mil mortes).

O relatório, chamado Global Violent Deaths 2017, aponta que países com grandes populações registraram maior número absoluto de mortes violentas, mas destaca que, mesmo quando considerada a taxa de mortes a cada 100 mil habitantes – uma forma de comparar países com populações diferentes, a região latino-americana apresenta um cenário preocupante: as taxas mais elevadas de mortes de mulheres e meninas, em 2016, foram, respectivamente nas regiões sul da África, da América Latina e do Caribe, e da Ásia Ocidental.

O relatório da Small Arms Survey aponta ainda o peso do feminicídio íntimo, aquele cometido em contexto de violência doméstica e familiar, nesse cenário. “A pesquisa sobre a mortalidade por homicídios revela diferenças significativas entre homens e mulheres. De fato, as mulheres são muito mais propensas a serem mortas por familiares ou parceiros íntimos do que os homens”, ressalta a publicação.

Dados brasileiros de 2013 analisados no Mapa da Violência 2015, já haviam colocado o Brasil em destaque em relação ao problema da violência letal contra as mulheres: com uma taxa de 4,8 homicídios de mulheres a cada 100 mil, o país ocupava a quinta posição entre as mais elevadas taxas de assassinatos femininos. Segundo o Mapa da Violência 2015, “efetivamente, só El Salvador, Colômbia, Guatemala (três países latino-americanos) e a Federação Russa evidenciam taxas superiores às do Brasil. Esse é um claro indicador que os índices do País são excessivamente elevados”.

Desconstruir legado racista, sexista e violento na América Latina

Em entrevista ao Informativo Compromisso e Atitude nº 15, a representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, alerta que a dimensão dos feminicídios é assustadora e preocupante na América Latina, o que reforça a necessidade de ações preventivas e políticas públicas de enfrentamento à violência.

“É preciso lembrar que temos diferentes tipos de violência e que temos a violência extrema, que é um tema muito preocupante e assustador, tanto quando pensamos no Brasil, como em toda a região latino-americana e caribenha. Precisamos desenvolver ações de prevenção e políticas públicas para erradicar esse fenômeno. Temos que pensar o que cada um e cada uma de nós pode fazer para acabar com todas as formas de violência, inclusive a mais extrema, que é o feminicídio”, frisa, citando um outro informe da Small Arms Survey que mostra que, dos 25 países que mais assassinam mulheres, 14 estão na região da América Latina e Caribe.

Para Nadine Gasman uma combinação de fatores gera esse triste cenário latino-americano: “por um lado você tem esse histórico que fez com que nossas sociedades sejam tão machistas e, por outro lado, há uma série de fenômenos sociais que têm aumentado as violências gerais e as violências específicas – em alguns países existem as gangues, há muitas armas na rua. Então, você junta essas coisas com sociedades machistas, discriminadoras e racistas e isso forma um coquetel que não dá certo e que estoura em violências contra as mulheres e também nas violências extremas”, explica.

A pesquisadora Izabel Solyszko Gomes lembra ainda no Dossiê Feminicídio que, apesar da região conviver com dados altos de homicídios de mulheres, estes podem representar só uma parte do problema, porque não agregam as mulheres desaparecidas e as mulheres cujo homicídio foi documentado como lesão corporal seguida de morte. “Na América Latina, os países são mais empobrecidos, completamente saqueados, são países que sofrem políticas de exploração por outros países. E são marcados por uma desigualdade de gênero muito forte. Não dá para desvincular o feminicídio do contexto latino-americano de sofrimento, de empobrecimento, de desigualdade e de lacuna de políticas públicas”, destaca Izabel Gomes, que é doutora em Serviço Social e docente na Universidade Externado de Colombia, além de esquisadora sobre violência de gênero, especialmente sobre feminicídio e movimentos de mulheres no conflito armado colombiano.

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