Só em 2016, 15 mulheres foram mortas por homens dos seus convívios afetivos (Correio Braziliense – 09/10/2016)

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Só em 2016, 15 mulheres foram mortas por homens dos seus convívios afetivos

Interromper uma conversa com Ronald Ribeiro, 50 anos, sobre a filha Louise Maria da Silva Ribeiro, que faria 21 anos no próximo dia 30, é uma tarefa difícil. A jovem estudante da Universidade de Brasília (UnB) foi assassinada dentro da instituição, em 10 de março, por Vinícius Neres, um colega de faculdade que não soube lidar com a rejeição. As lembranças do jeito de falar, do comportamento brincalhão, dos prazeres em cozinhar e jogar jogos de tabuleiros fazem com que Ronald se perca na saudade. Louise foi uma das 15 mulheres mortas neste ano por homens dos seus convívios afetivos. “Tornou-se banal. Corriqueiro. Acho que é a certeza da impunidade por parte do agressor que causa essa realidade”, conclui.

Cada novo caso de uma mulher morta é uma volta àquela noite do dia 10 e aos dias seguintes à tragédia. “Uma noite para não esquecer”, resume Ronald, em conversa exclusiva com o Correio. O ponto de encontro, o Instituto de Biologia (IB) da UnB, onde Louise passava a maior parte do dia. Do outro lado da rua, o Ibama, onde a estudante fazia estágio. Onde, da janela, fotografava com frequência um tucano. A foto ia direto para o grupo da família. Bichos, insetos, inclusive, estavam entre as paixões de Louise. Tartarugas marinhas tinham um lugar reservado no coração da jovem. Tanto que virou uma tatuagem no pulso direito.

Há pouco tempo, Ronald e outros familiares, além de amigos, tatuaram o animal, em homenagem a Louise. A frase “Milagres acontecem todos os dias”, que Louise trazia na costela, Ronald copiou. “Tudo continua como ela deixou. Doamos algumas coisas — algumas para amigas, como lembrança. Mas as fotos que tínhamos nos porta-retratos, em casa, ainda estão lá. Guardamos tudo de melhor que ela deixou.” A família voltaria no fim do ano aos Estados Unidos. Louise guardava dinheiro para viajar também para a Austrália, onde faria um curso de biologia marinha. Sonhos que ficaram no tempo.

A família se prepara para algumas datas que virão a partir de agora. Dia 30 é aniversário de Louise. Daqui a dois meses, vem Natal, Réveillon; dois meses depois, completa-se um ano do assassinato. O júri ainda não tem data marcada, porém, é um dos momentos mais aguardado e temido. Será o dia em que a Justiça poderá ser feita, mas também um dia para encarar novamente o assassino. Um rapaz que se disse apaixonado, que chegou a compartilhar momentos com Louise, até mesmo dentro da casa da jovem, onde esteve uma única vez.

“Quero que ele tenha ampla defesa, que tenha oportunidade de justificar o que fez — se conseguir. Não tenho nada contra a família dele. Para eles, deve ser difícil também, criar um filho para isso. Eu pelo menos sei a filha que criei”, pondera Ronald, perto do ipê plantado no IB em homenagem a Louise. Daqui a alguns anos, ele dará flores na cor rosa, a preferida da jovem. No Ibama, também foi plantada uma quaresmeira. Os dois locais são visitados quase que diariamente pelo pai. “É saudade, né? Venho, dou uma olhada, depois vou embora”, conta Ronald, o porto seguro da mulher e das outras duas filhas.

Tipificação
Tipificar o crime como feminicídio será uma das tentativas dos advogados. A qualificação é aplicada desde março de 2015 a crimes que acontecem em contexto de violência doméstica ou de relações afetivas entre a vítima e o agressor (leia O que diz a lei). De março a dezembro do primeiro ano de efetividade da lei, o Governo do DF contabilizou 5 assassinatos. Até setembro de 2016, o número de mulheres mortas é três vezes maior. “Não estamos de forma nenhuma satisfeitos com esse resultado. Uma vida tem que ser respeitada, sobretudo, se o elemento presente é uma questão de gênero”, afirma a secretária de Segurança Pública e Paz Social do DF, Márcia de Alencar.

A secretária admite que, a longo prazo, a cultura de violência contra a mulher só será rompida definitivamente por meio da educação. No entanto, no DF, por parte da própria Secretaria de Educação, por exemplo, não há projetos contínuos em prol dessa mudança cultural. Por meio da assessoria de imprensa da pasta, apenas um trabalho foi citado, feito em comemoração aos 10 anos da Lei Maria da Penha. Um dos programas do governo em andamento é, mais uma vez, na área da segurança pública. Um aplicativo será desenvolvido para que as mulheres vítimas de violência e atendidas por medidas protetivas possam acionar a polícia mais rapidamente.

Camila Costa
Colaborou Adriana Bernardes

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