Socióloga aponta necessidade de falar sobre machismo e violência contra as mulheres (Diário de Pernambuco – 29/06/2015)

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O relacionamento começa bem. Há promessas de amor eterno e troca de cuidados mútuos. Aos poucos surgem o ciúme, a posse, as agressões psicológicas e físicas – inclusive o estupro conjugal – o arrependimento, uma nova lua de mel e, um dia, a morte, sempre de forma violenta. O ciclo de violência doméstica contra a mulher é igual em todo o planeta. Apesar disso, nem todas percebem a armadilha da qual são vítimas. Quanto mais informação e recursos financeiros, mais chances de identificar a situação e escapar do ciclo de violência, diz a doutora em sociologia Ana Paula Portela, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Criminalidade da UFPE. Ciúme não é amor, “trata-se de um engano construído culturalmente. A gente é ensinada desde criança a compreender certos comportamentos masculinos como expressão de afeto”, reflete. Em meio aos nove assassinatos de mulheres registrados nos quinze primeiros dias deste mês, o debate sobre o assunto é necessário. Um dos casos mais chocantes foi a morte de Maria Alice Seabra, 19 anos, no último dia 19, estuprada e assassinada pelo padrasto Gildo Xavier, 34, que a criou desde a infância. A onda de violência significa que somente a Lei do Feminicídio, aprovada em março e que considera crime hediondo o assassinato de mulheres em virtude de violência doméstica ou discriminação de gênero, não é suficiente. Ana Paula Portela discute na entrevista abaixo alguns caminhos a seguir.

“Precisamos mais falar sobre o assunto”

O machismo se apresenta, muitas vezes, na forma de ciúmes e controle da vida da parceira. O comportamento chega a ser confundido com amor por algumas mulheres. Como quebrar esse ciclo de engano e violência?

Esse é um engano construído socialmente, culturalmente. A gente é ensinada desde criança a compreender certos comportamentos masculinos como expressão de afeto. Alguns filmes infantis clássicos também têm a construção de gestos poucos amorosos, sutilmente violentos contra a mulher. Os contos de fada, por exemplo, como a Bela Adormecida, beijada enquanto dorme, em uma relação de afeto não ativa, é um exemplo. Se transferirmos para os dias de hoje, um homem que não tem uma relação afetiva com uma mulher chega junto e beija é algo pouco aceito. Somos ensinadas a entender algumas atitudes como possibilidade de afeto, mas em geral não é amor, transforma-se em violência. Trata-se de uma construção antiga, sólida, enraizada na cultura e na nossa personalidade, na estrutura psíquica. Muitos acham que ter ciúme é certo, pois liberdade demais é sinal de desamor. Para lidar com isso, temos que seguir desconstruindo esses conceitos com meninos e meninas e nos adultos, seja como mãe, tia, amiga ou professora. É preciso estarmos atentas para repassar outros ensinamentos. As crianças fazem referência a isso quando dizem, por exemplo, você é só minha. Podemos quebrar essas mensagens, explicar que o outro não lhe pertence e nem é só seu ou só minha. É preciso transformação das atitudes, compreensão e levar o debate para as instituições.

O fato de expressões como sexualidade, gênero e orientação sexual serem retiradas dos planos de educação de estados e municípios após pressão de bancadas religiosas não é uma derrota nesse contexto de necessidade de debate?

É uma derrota simbólica. É importante ter escrito em documento oficial que devemos debater ideologia de gênero nas escolas do país. Demarca posição do estado em relação ao problema. Se tem escola resistente, por exemplo, uma minoria de alunos e professores poder retomar o plano para se expressar. Daí a importância de manter escrito. Mas o fato de não ter escrito não impede a discussão. A bancada evangélica toma como vitória real, mas a discussão não foi proibida. Outros mecanismos, como mobilização de alunos, professores e campanhas nas redes sociais podem acontecer. A derrota, mesmo simbólica, é importante e grande. Mas não é material. Temos outros meios.

Como justificar parte das pessoas colocarem a culpa da morte da jovem Maria Alice Seabra, estuprada e assassinada pelo padrasto, na mãe dela? A mulher chegou, inclusive, a separar-se do suspeito, que também costumava lhe agredir, mas voltou com ele, como em tantos outros casos. Isso em algum momento poderia transformá-la em culpada pela morte da própria filha?

A mãe de Alice é a primeira vítima desse homem. Ele era agressor e ela apanhava dele várias vezes dentro de casa. Todos os estudos de violência contra a mulher no mundo demonstram que essa violência produz impacto profundo na saúde mental e fisica da muher. Elas são frágeis emocionalmente, vivenciam sofrimento psíquico, vivem estado de medo, têm dependência emocional. O caso dele é clássico. Ele criou um ciclo de dependência emocional e a violência doméstica conjugal se repete. O ciclo começa com a violência psicológica, com o homem ciumento, controlador, que xinga, diz que ela não é dona de casa, é feia, tá embarangando, que os homens não querem ela, que está ficando velha. Esse conjunto de pequenos insultos e infâmias no cotidiano, entre quatro paredes, vai minando a confiança e a auto-estima da mulher. Com o tempo, se transforma em violência física e sexual. É um aperto no braço, uma puxada de cabelo, um sexo não consentido – chamado de estupro conjugal. Se agrava até que a mulher não aguenta e diz que vai separar e procurar ajuda. O ciclo é o mesmo no mundo inteiro. Então o cara muda. Surge a fase da lua de mel, quando ele diz que se arrepende, diz que bebeu na ocasião da violência, que está com problema no trabalho, que não pode viver sem ela, que não seria o mesmo homem. A lua de mel se estende por meses e a mulher acha que a violência acabou. O sexo fica bom, ele bebe menos, fica mais em casa, dá presentes à parceira. Ela passa a achar que o companheiro mudou. Meses depois o ciclo reaparece. Recomeçam o ciúme e ele sempre vai achar justificativas para atitudes violentas. Tais como a mulher não fez o que ele queria. Ele entende que são motivos para agir como agiu. As mulheres que passam por isso são prejudicadas do ponto de vista emocional. São vítimas. Não é possível culpabilizar a mãe de Alice pelo crime. É responsabilidade dele. Agressor da esposa e da filha. Repetiria o mesmo ato em qualquer família. O fato de procurar mulher mais velha com filho é um indicativo. Nessas condições a mulher é mais vulnerável. Está com filho pequeno e um homem aparece para ajudá-la. Essa violência acontece em qualquer classe social. A diferença é que a mulher com melhor condição financeira e com escolaridade mais alta percebe o risco que corre antes de se tornar mais grave. Elas têm meios de sair mais rápido, buscar a casa de família, têm carro, passagem de avião, informação para contratar advogado e chegar na polícia com pouco mais de proteção. Elas têm mais condição de escapar sem que a violência se torne fatal.

Como a família pode perceber casos de abuso dentro de casa como o ocorrido com Alice? Ele era considerado um bom padrasto e seu ciúme era tido como um sentimento natural de pai.

É uma situação dificílima. É preciso se colocar sempre no lugar da outra. Já é difícil para uma mulher aceitar que o homem que escolheu para ser seu amor, pai de seus filhos, que cuida, de repente lhe bate. Afinal, escolheu aquele homem porque queria que ele lhe beijasse e não machucasse. Imagine o choque emocional dessa pessoa. Quem está batendo é uma pessoa que você gosta. Não é um conflito simples. Imagine quando percebe que está fazendo mal para a filha dele, alguém que devia proteger, cuidar? Em geral, a mulher faz de conta que a situação não existe, que está interpretando mal, que aquilo é carinho de pai. Acho que o que se pode fazer é falar sobre o assunto. Se tem desconfiança, se aproxima das crianças, identifica se estão bem e protege. Em segundo lugar é possível conversar com outras pessoas e ver como elas identificam isso. Cuidado para não fazer acusações falsas. O medo do risco não pode cortar os vínculos afetivos. A maioria dos homens não é abusador e precisa de relação próxima com os filhos. É algo importante o contato. Tem que ter atenção, mas não se pode destruir a relação de paternidade. Os homens são muito afastados dos cuidados com os filhos, das atividades da casa, criados para viver em outro mundo e isso tem favorecido atitudes viris. Se trazemos mais para próximo da casa, da família, podemos construir uma masculinade menos violenta, mais pacífica e negociadora dos conflitos.

A sensação da violência contra a mulher estar aumentando diante dos últimos casos registrados no estado, nove assassinatos nos quinze primeiros dias do mês, é desestimulante. Qual o papel da mulher e dos estudiosos nesse momento?

É preciso que a rede de mulheres funcione melhor e cresça. Precisamos falar mais sobre o assunto, levar a sério as denúncias de ameaça. A Secretaria da Mulher tem feito sua parte, mas precisa intensificar as ações. As vigílias feitas por movimentos de mulheres também abrem o debate, podem construir segurança para mulheres em situação de violência, pois as vítimas percebem que não estão sós, que podem procurar ajuda para sair da situação e podem evitar a própria morte delas.

Onde as políticas públicas estão falhando?

Eu ampliaria e daria mais visibilidade aos centros da referência, colocaria braços na periferia do Recife, por exemplo. É bom que o Centro Clarice Lispector esteja no centro da capital porque muitas vezes a mulher procura ajuda escondida do marido. Mas às vezes ela não consegue nem chegar no centro da cidade porque não tem passagem. A Patrulha Maria da Penha, por exemplo, estou sabendo que não está chegando a tempo. É importante aumentar o número de carros, melhorar o esquema de denúncia. Também tem as medidas protetivas previstas pela Lei Maria da Penha. Se a medida não é aplicada imediatamente, não adianta. O governo do estado fornece a pulseirinha para o agressor ser monitorado à distancia. Não podemos deixar nenhuma mulher descoberta. A Justiça tem que encontrar uma forma de autorizar o uso da pulseirinha imediatamente.

As redes sociais e a bancada conservadora ajudam a fortalecer o machismo?

As redes sociais funcionam como uma grande praça pública. Se expressam todos os lados. Não acho que o fato de não se mostrar ao vivo deixa a pessoa mais agressiva. Até porque ela sempre deixa o rastro, como fotos, vídeos. Essas pessoas também podem ser denunciadas por crime de ofensa, injúria, agressão e discurso de ódio. Na praça pública a ferramenta de denúncia talvez seja menos rápida.

A ONU Mulheres lançou a campanha Eles Por Elas, versão brasileira do He For She, movimento mundial a favor da igualdade de gênero. A meta inicial da campanha é atingir 100 mil assinaturas de homens brasileiros até o fim do ano, mostrando que a igualdade de gênero não é apenas uma questão de mulheres e sim de direitos humanos. O que você acha de campanhas como essa?

A campanha da ONU Mulheres é importante nessa guerra contra o machismo. Precisamos mobilizar o que pudermos. É importante dizer que não é uma campanha para incentivar o protagosinmo do homem na luta feminista. Essa luta é das mulheres, mas é um chamado sobre o mundo que querem para eles, se é um mundo com opressão, violência, ou gentil e generoso. É um chamado nessa direção.

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