TJRJ treina cabeleireiros, manicures e maquiadores para ajudar mulheres vítimas de agressões

Do fio do cabelo ao fundo da alma, Tribunal de Justiça do Rio realiza projeto inédito contra a violência

RIO —  Aquele “papo de salão”, em que as mulheres passam horas trocando experiências enquanto cuidam da beleza , pode revelar muito mais sobre a alma feminina do que se imagina. De olho nasrevelações feitas a cabeleireiros ,manicures e maquiadores , oTribunal de Justiça do Rio pensou num projeto inédito para combater a violência doméstica. Através doMãos Empenhadas contra a Violência , lançado este mês, o tribunal vai treinar os profissionais da área de estética para informar sobre a Lei Maria da Penha , conscientizar suas clientes e até encaminhá-las paraatendimento , caso necessário.

O tribunal parece ter acertado em cheio. Há um ano, Eduard Fernandes abriu seu próprio salão no Méier, mas há 25 ele acumula experiência no ramo, o que lhe dá a certeza de que o acolhimento é fundamental.

— Já fiz maquiagem para tirar hematomas — conta Ed, como é conhecido, que decorou sua loja com mandalas, símbolo da integração e harmonia. — Muitas vezes, a cliente chega aqui mais para desabafar. O cabeleireiro é o amigo secreto.

Ed adotou métodos de terapia holística, por conta própria, para “abraçar” as que chegam mais carentes ou com o coração pesado. Mas ele já planeja fazer o treinamento do tribunal. A hair stylist Guará Silva, uma das primeiras a participar, entende hoje que a autoestima, aliada ao empoderamento, é um caminho não só para acolhimento, mas também para a prevenção de abusos:

— Algumas atitudes das clientes me fazem entender que algo não está certo. Elas precisam se abrir e vou mostrar a elas os recursos de ajuda disponíveis.

Na Barra, spa terapêutico

Em parceria com a psicóloga Renata Salles de Moraes, ela pretende criar uma espécie de spa terapêutico em seu estúdio, que funciona no Sola Salons, um coworking da beleza na Barra da Tijuca.

— A ideia é proporcionar desenvolvimento humano para que as agressões não caiam na normalidade — explica Renata.

Em parceria com o Senac-RJ, o Mãos Empanhadas Contra a Violência já treinou 30 profissionais. Até o fim do ano, cerca de 200 instrutores dos cursos de cabeleireiro e maquiador serão qualificados. Eles atuarão como multiplicadores e, a partir do ano que vem, vão incluir o tema em seus cronogramas de aula.

Gerente-executiva do Senac, Luciana Maranhão acredita na capacidade do grupo de formar uma rede de proteção à mulher:

— Desde 2017, já formamos quase de dez mil cabeleireiros e maquiadores. Essas pessoas podem fazer a diferença na vida das mulheres daqui para frente.

A iniciativa teve início no tribunal de Mato Grosso do Sul. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, buscou inspiração no projeto para lançar, em breve, o Salve uma Mulher, cujas bases ainda não foram divulgadas.

No Rio, a capacitação aborda as causas da violência doméstica, a Lei Maria da Penha e a rede de enfrentamento. Integrante da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, a juíza Katherine Jathay acha que os resultados vão surpreender:

— É com esses profissionais que as mulheres se abrem e se sentem livres de julgamento. Então, poderão orientá-las e conscientizá-las.

A coordenadora-geral das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, delegada Juliana Emerique, acha que a subnotificação pode cair.

— Quanto mais as pessoas conhecem seus direitos e percebem que, em briga de marido e mulher, se mete a colher, mais vidas podemos salvar — diz, acrescentando que este ano já foram realizadas 465 prisões.

Por Giselle Ouchana

Acesse no site de origem: TJRJ treina cabeleireiros, manicures e maquiadores para ajudar mulheres vítimas de agressões (O Globo, 01/09/2019)