Tribunal do júri vai à telinha, mas não como em um filme, por Gustavo Romano (Folha de S.Paulo – 15/03/2013)

A transmissão de julgamentos como o do caso Mércia ajuda a desfazer a imagem incutida por Hollywood de advogados de oratória e lógica precisas, de depoimentos bombásticos e debates emocionantes. A realidade é que, para ser justo, o julgamento precisa ser analítico, detalhado. Para o leigo, isso pode ser enfadonho.

Percebemos logo que os atores do tribunal têm as mesmas limitações que todos nós: são humanos. Pode não ser emocionante como um filme, mas é melhor assim. Adrenalina e parcimônia não combinam.

O julgamento pode até produzir momentos inusitados, mas eles são mais interessantes para sociólogos do que para leigos, perdidos na monotonia de depoimentos longos.

A transmissão ao vivo serve também para aproximar audiência e instituição.

A maior parte dos brasileiros desconhece o funcionamento da Justiça sustentada com seus impostos. Poucos entraram num fórum e ainda menos assistiram a um julgamento. A democracia sai fortalecida quando perdemos o temor reverencial gerado pelo desconhecimento institucional.

Mas há perigos. O maior deles é que, com a popularização das transmissões, seus personagens passem a tratá-lo como um show no qual a dignidade e a busca da verdade se tornem secundárias.

Esse é um risco particularmente grave em um tribunal do júri, que por natureza é um grande teatro, onde jurados decidem com base em impressões e emoções, e não no conhecimento da lei.

Gustavo Romano é mestre em direito pela Universidade Harvard (EUA) e responsável pelo site direito.folha.com.br

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