UnB apura ‘dossiê’ sobre professor suspeito de assédio moral e sexual (G1 – 15/12/2015)

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Ele dá aulas na Faculdade de Comunicação e não quis comentar acusação. Denúncias usaram #meuamigosecreto; ‘histórias são nojentas’, diz ex-aluna.

A reitoria da Universidade de Brasília (UnB) analisa um “dossiê”, protocolado no fim da última semana, com dezenas de denúncias de assédio moral e sexual contra um professor da Faculdade de Comunicação (FAC). No documento, as alunas relatam casos de contato físico indesejado, atividades degradantes e cenas de humilhação protagonizadas dentro de sala de aula, na frente de colegas.

A UnB confirmou ao G1 que o documento foi recebido na última sexta-feira (11), mas afirmou que o processo correrá em sigilo. Por telefone, o professor alvo das denúncias disse que não pode se pronunciar sobre o assunto porque já há um processo em andamento na universidade.

As denúncias foram reunidas pelo Centro Acadêmico de Comunicação (Cacom), que também afirmou não poder comentar o caso. Uma ex-aluna do curso, que prefere não se identificar por medo de represálias, disse ao G1 que as reclamações sobre a conduta desse professor já eram famosas entre as colegas, mas só agora ganharam repercussão.

“Sempre que a gente falava das matérias dele, alguém tinha uma história ruim para contar. As histórias são nojentas mesmo, de passar a mão, comentar dos seios de uma, da bunda da outra e dizer que mulher é isso ou aquilo. Você imagina ouvir isso em uma sala de aula cheia de pessoas adultas”, diz a cineasta.

#meuamigosecreto
As denúncias contra o professor de audiovisual ganharam corpo nas redes sociais a partir da hashtag #meuamigosecreto. A campanha feminista nacional, feita no fim de novembro em redes como Twitter e Facebook, trazia mulheres compartilhando casos de machismo sofridos no cotidiano, sem revelar o autor dos atos.

“#meuamigosecreto é professor da UnB. […] Quando eu quis justificar minha falta e levei pra ele meu atestado de um exame importantíssimo na ginecologista, ele ficou emburrado. Esperou eu sair e disse para outros alunos que estavam na sala: ‘não sei pra quê mulher falta à aula para cuidar de vagina'”, dizia uma das mensagens postadas.

Em outra postagem, uma aluna conta que estudantes, homens e mulheres, tiveram que “andar de quatro” pela sala de aula em um “exercício de direção”. Segundo ela, “todas sabemos que ele queria era olhar para a bunda das meninas”.

Multidão de pessoas no campus da UnB, em Brasília (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Multidão de pessoas no campus da UnB, em Brasília (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Na atividade em que alunos colaram críticas anônimas na sala de professores da Faculdade de Comunicação, um recado afixado na sala deste professor dizia: “#meuamigosecreto estuda aqui”. As mensagens também indicam que as atitudes do professor chegaram a ser contestadas em sala de aula, sem efeito.

“#meuamigosecreto é professor de cinema e quando a aluna responde aos comentários misóginos, racistas, homofóbicos e bairristas que ele faz, no fim da aula quando todo mundo já saiu da sala, ele faz uso da autoridade dele como professor para ameaçá-la de reprovação”, diz um dos textos publicados.

Machismo ‘sistemático’
Como as mensagens são anônimas e não identificam o destinatário, não é possível afirmar que todas se refiram ao mesmo professor. Uma aluna do curso, que também prefere não se identificar, afirma que episódios de machismo são comuns em sala, mas se tornaram “sistemáticos” nessa disciplina.

“A sociedade é machista, e a academia é um ambiente que reproduz isso diariamente. Existem níveis e níveis, e esse professor parece ter ultrapassado todos. Ele nunca fez nada comigo, diretamente, mas já presenciei coisas terríveis. Se for preciso, vou protocolar denúncia como testemunha para evitar que isso se repita”, diz a estudante.

Em março de 2014, estudantes da UnB criaram uma página virtual para denunciar casos diários de assédio protagonizados por alunos, professores e servidores. Em menos de um mês, o espaço recebeu 152 mensagens e ultrapassou a marca de 5 mil seguidores.

Mateus Rodrigues

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