Violência contra a mulher acontece em gestos abusivos, silenciosos e cotidianos (Portal O Dia – 05/06/2016)

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As estatísticas mostram que uma mulher é vítima de violência sexual a cada 11 minutos no Brasil

Um homem é encontrado desacordado em uma festa após ingerir grande quantidade de bebida alcoólica. Ele é colhido e, sem motivos aparentes, começam a despi-lo e abusar de seu corpo. Desacordado, inconsciente, esse homem é exposto, violentado e ainda é alvo das famigeradas filmagens publicadas nas redes sociais. Essa é uma cena de violência? Sem dúvidas. Difícil imaginar que algo desse tipo ocorra? Não se pensar que, ao invés de um homem, a provável vítima da situação seja uma mulher, alvo contumaz deste tipo de violência: o estupro.

Situação parecida como a imaginada no começo desta reportagem viveram, nos últimos 15 dias, uma jovem no Rio de Janeiro e outra na cidade de Bom Jesus, no interior do Piauí. Separadas por milhares de quilômetros de distância, aproximadas pela dor compartilhada em se tornarem alvos do mesmo crime. Ambas foram vítimas de estupros coletivos enquanto estavam inconscientes.

No entanto e, infelizmente, esses não foram casos isolados. Segundo estatística recolhida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), uma mulher é vítima de violência sexual a cada 11 minutos no Brasil. São mais de 120 mulheres violentadas todos os dias. Um crime tão usual, tão naturalizado, que se coloca para além da reflexão de uma sociedade apenas violenta. É onde a discussão sobre a ‘cultura de estupro’ toma corpo e urgência.

“Existe sim essa cultura do estupro e nós podemos associar isso a uma matriz brasileira de machismo. É só observar o cotidiano. É costumeiro estar dentro de casa, um primo seu passa e dá um ‘tapinha’ na sua bunda, aparentemente aquilo é banal, aparentemente aquilo é permissivo, mas se formos analisar em uma ótica mais crítica, nisso, já observamos o quão natural é, nós mulheres, sermos abusadas”, destaca a antropóloga, Pâmela Laurentina.

São episódios de abusos que se repetem nas ruas, com cantadas constrangedoras e intimidadoras; em transporte público, com homens se aproveitando do pouco espaço para abusarem de passageiras; em festas, com beijos ‘roubados’ e puxões de cabelo; ao definir uma mulher pela roupa ou acessório que utilize, como ‘puta’ ou ‘vadia’. É uma teia de situações tidas como ‘normais’ construídas sob a trajetória de cada mulher, que juntas eclodem no extremo da agressão feminina.

Situações cotidianas, aceitas de forma silenciosas, que corroboram para que casos como os de estupros coletivos continuem a ser tão comuns nesta sociedade. Uma cultura que perpassa pela objetificação do corpo da mulher, a banalização da violência e a culpabilização da vítima, que tem colecionado tragédias diárias em todo o país.

“Residimos em um país machista e somos alvos de violências constantes”

Uma questão cultural, patriarcal e machista. É partindo dessa análise, que a existência da cultura do estupro começa a ser desenhada pela cientista social e mestre em antropologia, Pâmela Laurentina. “É necessário que pensemos a matriz brasileira, que apesar dos quadros de mudanças e permanências, ainda somos um país que reside em uma cultura patriarcal, machista e, nós, mulheres, somos alvos de violências constantes”, avalia.

São violências que passam pelo desprezo da vida, pelo corpo e pela sexualidade das mulheres. É isso que significa, por exemplo, conceber uma sociedade que enfrenta casos de estupros coletivos de forma repetitiva onde, em uma lógica reversa, quem se torna alvo de questionamentos primeiros é a vítima: onde ela estava? Como ela estava? Com quem? Ela facilitou?

Para a pesquisadora, a mulher é usualmente apontada como culpada, e isto, nada mais é, que uma forma de machismo presente na sociedade. Em uma cultura de estupro, é aceitável fomentar a existência de crenças e normas de comportamento para as mulheres, usualmente as colocando como um ser humano que deve estar, constantemente, atrelado a uma lista de condutas morais. Exclui-se das mulheres o direito ao próprio corpo, desumanizando a ponto de serem vistas como objetos. Mulheres são divididas nas que ‘tem valor’ e ‘sem valor’.

“Você começa a observar os dispositivos de poder dentro da sociedade que estão amalgamados dentro dessa perspectiva patriarcal e machista, por isso, essa necessidade de estarmos a todo tempo reiterando ‘olha somos vitimas’, ‘vocês tem que ir atrás do agressor’, porque existe a naturalização da mulher numa perspectiva subalterna”, destaca Pâmela.

“Agora, começa um movimento de cobrança dos seus direitos e apontamento , a exemplo: ‘não é porque eu estou vestida assim, que eu mereço ser estuprada’. A grande questão é saber até que ponto o Estado é detentor ou não dos nossos direitos biopolíticos: somos donas dos nossos próprios corpos? Se sim, porque somos agredidas a cada escolha de roupa?”, lembra.

Para enfrentar o cenário, a pesquisadora destaca da necessidade de pensar e tratar as instituições de forma articuladas. “É impossível pensar educação sem pensar em família, é impossível pensar educação e família e não pensar as outras instituições. Como é que eu posso falar em diversidade de vida, de potência de vida, se eu tenho, atualmente, as câmaras de poder formadas, em sua maioria, por homens heteronormativos conservadores? Não temos uma ideologia de gênero, nós devemos discutir potências de vida. Estamos falando em diversidade, em variabilidade humana. Temos que nos posicionar politicamente, em ponto de resistência, porque acho que, mais que nunca, o momento político está sendo bem oportuno e necessário”, finaliza.

Quebrando o silêncio, jovens quebram barreiras e se organizam para debater sobre o tema

Enquanto as primeiras palavras saem, ela deixa a visão baixa. Manter o contato visual é missão difícil, quando os gestos involuntários deixados pelo corpo querem esconder ou esquecer tudo o que aconteceu. Mas as lembranças estão lá e saem em forma de frases intercaladas por longos suspiros e lágrimas. É assim que Maria do Céu, 19 anos, consegue iniciar a contar que foi vítima de abuso sexual, quando tinha apenas sete anos.

O que a jovem manteve em silêncio sepulcral por anos a fio, agora, é um relato compartilhado com dezenas de outras jovens em uma proposta de ir contra qualquer corrente de silêncio. Falar sobre o estupro para combatê-lo, é a proposta das jovens que se organizam no movimento #JuntasSomosMaisFortes.

“Só contei para minha mãe depois que o abusador, meu tio, faleceu. Ela sofreu muito. Para mim foi difícil entrar na puberdade, me relacionar com homens. O pai da minha filha me ajudou bastante, porque eu me culpava. Mas eu ainda tenho muito medo pela minha filha. Eu sei que vai ser difícil confiar em alguém de novo”, desabafa.

Enquanto conta o que viveu, Céu não recebe apenas olhares de piedade, mas de reconhecimento. Outras meninas dali passaram por situações semelhantes. Outras meninas foram abusadas e tantas outras vivem com o medo diário de também ser.

“A gente não tem medo de morrer, tem medo de ser estuprada, porque até a configuração do medo é diferente da mulher para o homem. Temos uma cultura de que a garota não pode sair de short, ela tem que escolher as roupas que tem que usar, porque os homens irão assediar, e esse assédio é uma coisa normal. É a cultura de que você deve reprimir a sexualidade das garotas e incentivar os homens a serem livres, mas as mulheres não”, desabafa a estudante de história, Lydia Meneses, uma das participantes do grupo.

Juntas, as jovens querem agir contra os posicionamentos machistas impostos pela sociedade ao longo de suas vidas. A ideia inicial de formar um grupo para protestar contra os recentes casos de estupro coletivo, tem se ampliado para um local de formação e cobrança, onde as garotas terão acesso a debates de empoderamento próprios e também para outras mulheres.

“O caso da Beatriz foi só um fogo para a gente querer se mobilizar. Estamos vendo uma geração de garotas que precisam acordar e entender que, filha, você pode namorar, vestir o que quiser, não deve se encaixar na conduta de uma sociedade machista. Entender que isso é natural, questionar e falar dentro de casa, onde muitas meninas estão reprimidas, é essencial”, finaliza Lydia.

Por: Glenda Uchôa – Jornal O DIA

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