Violência contra a mulher é combatida em Grupo Reflexivo de Homens (Portal JH/ RN – 18/01/2013)

Desde o último dia 15, o Núcleo de Apoio à Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar (NAMVID), em parceria com a 72ª Promotoria de Justiça, acompanha a segunda turma do Grupo Reflexivo de Homens. Em meio a processos judiciais, decorrentes de agressões físicas, dez acusados participam de reuniões semanais com psicólogas e assistentes sociais como medida de alteração comportamental em cônjuges que enxergam a relação de forma unilateral e possessiva.

Parte de uma cultura machista, que enaltece a poligamia, tapas ‘recreativas’ e coadjuvância para as mulheres, é o tipo de crime que tem sua origem, muitas vezes, nos valores adquiridos através da família e da mídia. E, como tal, deixa o praticante do delito sem entender o porquê das acusações. “Eles acham que elas mereceram apanhar ou que provocaram”, diz a promotora de justiça e coordenadora do NAMVID, Érica Verícia Canuto de Oliveira Véras. Ainda que a Lei Maria da Penha tenha entrado em vigor em 2006, crimes contra mulheres acontecem todos os dias.

Com dinâmicas de grupo, exibição de filmes e palestras, o Núcleo é uma das ferramentas punitivas dos condenados por agressão à mulher. “A violência tem um ciclo. Tem começo, meio e fim, que é o homicídio. Eles sentem a mulher como propriedade e, como tal, pensam que podem fazer o que quiserem”. Uma das atividades prevê a livre escolha de uma imagem, dentre várias, com temas variados, como famílias felizes, homens musculosos em motocicletas ou com armas na mão – a decisão norteará o trabalho dos profissionais.

As conversas giram em torno de tópicos, como o uso abusivo de álcool e outras drogas (uma das principais causas da violência), poder e questões de gênero, exploração de emoções. Em Natal, são mais de 7.250 processos, desde 2008, ano em que o juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher começou a funcionar. “Muitos começam a se arrepender no momento em que respondem o processo. Aí ele se toca e vê a gravidade de seu ato”, afirma Érica, para quem o papel subalterno da mulher tem ínicio nos presentes da infância.

“A menina ganha vassorinha, panelinha, enquanto os meninos ganham aviões, carros e armas de brinquedo, objetos que têm o poder no controle”. Já casados, pressão dos amigos, músicas e personagens da teledramaturgia ou cinematográficos e a preponderância pré-estabelecida para os homens estimulam atos violentos, que começam com palavras de baixo calão, passam pela fase dos empurrões e torções de membros superiores, para, enfim, culminar com tapas, chutes, socos e puxões de cabelo.

Tanto na primeira, como na segunda turma do NAMVID, os envolvidos pertencem a todas as classes sociais. “Temos homens aqui que são comerciantes bem sucedidos, e também motoqueiros. As mulheres de classe alta, por exemplo, têm medo de denunciar, por vergonha ou medo da separação. Já as mais pobres, são mais fáceis de gritar por socorro. Sem contar que pela arquitetura das casas, com paredes coladas umas as outras, os vizinhos ligam para a polícia quando escutam discussões. Quantas mulheres não foram salvas por denúncias de vizinhos?”, questiona Érica.

Exemplo clássico da influência da mídia na manutenção da cultura do machista violento pode ser vista em uma das músicas mais pedidas nas principais rádios populares de Natal. Faixa de uma banda de forró, “Hoje eu tô topando” traz na letra a marca da ignorância. “Olha mim diz ai novinha, o que você vai querer […] O quarto espelhado do jeito que agente quer, tá todo mundo bebo e tem rodízio de mulher. Olha não pode ter ciúme que aqui é tudo amiga, o lance é o lance, não confunda que dá briga, vai ter pra todo mundo, ninguém se desespera se não der o que eu quero eu vou passar na cara dela”.

“Muitos chegam aqui e dizem que não deveriam ter vindo, que a mulher não deveria ter feito a denúncia. Compreendem o erro, mas que não era para tanto”, revela Érica. Segundo ela, as mulheres querem livrar seus respectivos de uma espécie de gênio ruim que se apossou de almas caridosas, amigas, paternais. É freqüente que agressores recebam elogios das esposas, mesmo com os surtos violentos que machucam e humilham. “Queremos, com o Grupo, fazer uma reeducação da postura desses homens que também são vítimas. Quase todos têm um histórico de violência na infância, seja ela física ou de rejeição, abandono”.

O trabalho com o Grupo Reflexivo de Homens é permanente. Após a conclusão das dez semanas de encontros, psicólogos e assistentes sociais visitam os casais para monitorar resultados. “Conversamos com as mulheres para saber se eles reincidiram, se voltaram a beber ou se drogar”. Érica sabe o quanto a desconfiança de traição povoa o universo masculino. “Acreditamos em nosso trabalho. Aqui não falamos diretamente do crime que ele cometeu, se foi por causa da roupa curta da mulher, ou se ela mantém contato com outros homens que o chateiam. Mas o que vemos é que eles apenas transferem o motivo de suas perseguições”.

 

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