Violência contra mulher ainda é muito tolerada por europeus, diz pesquisa (UOL – 26/11/2015)

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As atitudes de aceitação e tolerância diante da violência contra as mulheres persistem na Europa, segundo constata relatório encomendado pela Comissão Europeia a dois pesquisadores espanhóis, Marisol Lila e Enrique Gracia. A dupla compilou dados de todas as pesquisas disponíveis em 19 países para analisar o clima social em que se produz a violência de gênero. O trabalho será apresentado em Bruxelas nesta quarta-feira (25).

“Há estereótipos e atitudes sexistas que ainda são muito prevalentes em alguns setores da sociedade”, indica um dos autores, Enrique Gracia, catedrático de psicologia social na Universidade de Valência. O estudo constata que as atitudes de culpabilização da vítima estão muito difundidas, algo que considera “preocupante” e que recomenda seja investigado pela União Europeia.

“O informe é uma foto incompleta porque quase não há dados comparáveis. Não se fazem as mesmas perguntas em todos os países, nem todos contam com pesquisas sobre esse tema”, explica Gracia. “Mas este trabalho é uma ferramenta a mais no conhecimento sobre as atitudes frente à violência machista, e permitirá ver quais são as lacunas e tentar superá-las”, acrescenta.

Uma das principais recomendações do trabalho é exatamente a de realizar pesquisas em nível europeu para obter dados comparáveis. Os estudos analisados mostram, por exemplo, que a aceitação pelos mais jovens de atitudes machistas, como o controle, continua muito presente nas relações de casais.

Para isso se basearam, entre outros, em um estudo espanhol do Centro de Investigações Sociológicas que, por encomenda do Ministério da Saúde, examinou como percebem a violência de gênero os adolescentes e os jovens, continuação de outra semelhante realizada em 2014 com pessoas de todas as idades; 33% dos jovens espanhóis entre 15 e 29 anos, isto é, um em cada três, considera inevitável ou aceitável em algumas circunstâncias controlar os horários de suas parceiras, impedir que vejam suas famílias ou amizades, não permitir que trabalhem ou estudem ou lhes dizer o que podem ou não podem fazer.

O relatório também cita outro dos trabalhos que permitem comparar por países, um Eurobarômetro especial sobre violência de gênero publicado em 2010, no qual 52% dos pesquisados em toda a Europa indicaram que o “comportamento provocativo” das mulheres era uma das causas da violência.

Outra pesquisa sueca, também citada no relatório, mostrou que 30% dos rapazes concordava com a frase: “Normalmente são só as mulheres que se vestem de forma provocativa que são violadas”. O trabalho também perguntava aos pesquisados se estar sob a influência de álcool e drogas era uma circunstância atenuante em caso de violação: 11% dos homens responderam que sim; 8% das mulheres também.

“Há muitos fatores que podem explicar a violência de gênero. Às vezes, há mais diferenças entre fatores sociodemográficos em um mesmo país do que entre países diferentes”, concordam Lila e Gracia, que crê que todos eles deveriam ser estudados para entender melhor que está acontecendo.

Nas conclusões de seu informe, por exemplo, afirmam que no caso das atitudes de culpabilização das vítimas de violência esses casos ocorrem mais frequentemente entre homens mais velhos e com menos educação, além de grupos minoritários. Alguns resultados mostraram “porcentagens alarmantes”, indicam os autores. O número de mortes entre imigrantes também é notável, indica Lila. Na Espanha, foram feitas campanhas para conter a violência entre essa população.

O único estudo feito até agora que permite comparar dados sobre prevalência da violência contra a mulher em todos os países da UE foi apresentado no ano passado em Bruxelas. Os resultados de uma macropesquisa com 42 mil mulheres (1.500 por país da UE) mostraram que uma em cada três europeias experimentou violência física e/ou sexual, segundo a Agência dos Direitos Fundamentais da UE (FRA na sigla em inglês).

Trata-se de 62 milhões de mulheres, se extrapolarmos os dados. E pouco mais de uma em cada cinco (22%) respondeu aos pesquisadores que havia sofrido essa violência física e/ou sexual por parte de um parceiro ou ex-parceiro.

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