Violência doméstica pode acarretar problemas psicológicos (Diário de Sorocaba – 20/09/2015)

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“Meu marido sempre foi agressivo e judiava do meu filho mais velho, chegava bêbado e batia nele. Eu estava no quarto dando comida para a minha filha mais nova quando ele chegou e grudou no pescoço do menino. Eles foram até a cozinha e, para se defender, meu filho pegou uma faca e enfiou na barriga dele; foi uma facada só. Meu filho pequeno, o A.S., viu tudo, e hoje é ele quem ameaça matar o irmão como ele fez com o pai.” Essa é a realidade da mãe de quatro filhos, L.C.S, 32 anos, que não quis ter a identidade revelada.

De acordo com dados da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, no primeiro semestre de 2015, foram registrados 32.248 relatos de violência contra a mulher no Brasil. Destes, 78,59% das vítimas possuem filhos, em que 81,30% deles presenciaram ou sofreram a violência. Na cidade, com registros do Centro de Integração da Mulher (CIM Mulher), no primeiro semestre deste ano, 68 mulheres foram vítimas de violência doméstica e, destas, 36 são mães.

A psicóloga Simone Moraes dos Santos explica que, do ponto de vista psicanalítico, uma criança pode estar vulnerável a traumas desde a vida intrauterina. Com a autoestima completamente comprometida, presenciar qualquer tipo de agressão pode acarretar grandes problemas futuros. “Além de sua imaturidade física, do ponto de vista psicológico, o ser humano vai adquirindo habilidades paulatinamente. Ele é dependente das próprias capacidades e de pais que o acolham em suas necessidades físicas e emocionais. Assim, a vulnerabilidade própria da infância constitui um fator que propicia o desenvolvimento de traumas diante de violência.”

“Meu filho é muito nervoso. Bate na irmã e qualquer coisa que ele tem na mão ele joga na gente. Tem hora que tenho que colocar ele de castigo, mas ele não fica porque é muito violento”, relata L.C.S.

A equipe de reportagem conheceu o pequeno A.S. Aparentemente um menino calmo e tranquilo, porém, com um olhar amedrontado e assustado com a presença da equipe, não quis sair de perto da mãe. Relembrar o antigo relacionamento traz lembranças dolorosas à vida de L.C.S, que desde a gestação sofreu com o falecido marido.

“Se eu terminasse com ele, não teria onde morar com as crianças. Ele era violento comigo também quando bebia. A juíza o tirou de casa porque meu filho do meio foi procurar o Conselho Tutelar por conta própria. Ele não gostava dos meus filhos, chamava o mais velho de macaco, de várias outras ofensas, e eu sempre brigava com ele.”

A fatalidade, que aconteceu na cidade de Rio das Pedras, distanciou a família por alguns meses. “Meu filho, o mais velho, teve que depor e conseguiu alegar legítima defesa porque estava com marcas de enforcamento. Depois disso, veio morar em Sorocaba e eu fiquei com os outros três”, conta a mãe destacando que o filho mais velho não sofre consequências pelo acontecido. “Ele é supertranquilo. Hoje, tem 18 anos, trabalha e mora sozinho. É carinhoso comigo e sempre foi assim, não tenho o que reclamar dele, minha preocupação mesmo é com o pequeno.”

Presenciar a morte do pai pelo próprio irmão, segundo a mãe, é o grande trauma na vida de A.S, que atualmente encontra-se com cinco anos. “Ele só tinha dois anos. Hoje, sente falta do pai e pede para ver a foto dele. Ainda com dois anos, ele chorava, agora parou”.

Ciúme e carência por parte de A.S. também puderam ser observados ao longo da conversa. Lamentando a situação da família, L.C.S recorreu ao atendimento psicológico público, porém ainda espera uma resposta. Hoje, mulher de um homem de 66 anos, ela revela que o filho também chega a ser bastante agressivo com o padrasto. “Ele bate com o cabo da vassoura, ataca com a chupeta e corre com facas na mão. Eu, às vezes, tenho de dar uns tapas, mas não adianta. Ele judia da pequena quando está comigo.”

Questionada sobre o afeto de mãe e filho, ela revela ser bem atenciosa. “Sei que tenho de dividir as coisas entre os dois porque ela tem quatro anos e ele cinco. Sempre que posso, faço aquilo que ele pede; às vezes, até o faço dormir. Nessas horas ele fica tranquilo”, pondera.

De acordo com a psicóloga Simone, o comportamento de A.S, decorrente do histórico vivenciado por ele, aparenta ser normal. “É normal ele ter essas reações porque vivenciou tudo o que aconteceu na família numa idade de muita vulnerabilidade. Ele está sofrendo e encontrou nesses distúrbios de humor uma forma de alívio. Ele precisa muito de um acompanhamento.”

FORA DE CASA – Segundo a orientadora social de um projeto no Parque das Laranjeiras, Maria Tereza Camargo, as atitudes de A.S. sempre a preocuparam. “Ele é realmente muito agressivo, por qualquer coisa bate nas outras crianças. Atualmente, ele passou a falar mal das mães porque foi uma forma que encontrou de provocar as crianças”, conta ressaltando que ele sempre demonstrou ser um menino ciumento. “Ele deve se sentir ameaçado. Percebi que, quando estou perto dele, tudo fica bem, mas, se eu sair para conversar com outra criança, ele vai lá e agride. Assim como ele faz com a irmã, em relação à mãe.”

Outro ponto observado pela orientadora é a aproximação de A.S no último Dia dos Pais, comemorado no dia 9 de agosto. “Eu contei para eles que o meu pai foi assassinado na minha frente, mas até então eu não sabia da história do A.S. Depois desse episódio, percebi que ele aproximou-se muito de mim e sempre que me vê triste pergunta o que tenho. A impressão que tenho é de que ele entende a minha tristeza, ele se identifica mesmo eu não deixando isso transparecer.”

PROCURA POR APOIO PSICOLÓGICO – A psicóloga destaca que o acompanhamento psicológico, com um profissional especializado, é fundamental. “A criança precisa ser ouvida e acolhida em um espaço de confiança onde ela seja aceita e respeitada, livre de críticas.”

Ela explica também que o ser humano está em constante estado de evolução, sendo capaz de superar dores e traumas, contudo precisa de ajuda. “Dependerá da capacidade de resiliência e do apoio recebido por pessoas significativas em sua vida, bem como apoio psicológico.”

A coordenação do prejeto, ciente da situação do pequeno A.S., solicitou ajuda médica voluntária. “Todo o alicerce daquela família está machucado e isso abala todos eles. Isso nos preocupa demais e sabemos que a demora por assistência via Sistema Único de Saúde (SUS) demora muito. A.S precisa de apoio técnico.”

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