Violência persiste no interior e no Nordeste, mostra novo mapeamento (Folha de S.Paulo – 22/03/2016)

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A violência nas microrregiões brasileiras e no Nordeste manteve o viés de alta dos últimos anos, segundo o Atlas da Violência 2016, com um número cada vez maior de jovens e negros vítimas de homicídios.

Elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao governo federal, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ONG especializada no assunto, o estudo analisou os dados mais recentes do Ministério da Saúde sobre mortes violentas intencionais, referentes ao ano de 2014, quando quase 60 mil pessoas foram assassinadas no país.

“O cenário é quase de colapso”, diz Renato Sérgio de Lima, vice-presidente do Fórum que ajudou a elaborar o trabalho. “O estudo confirma uma realidade que, infelizmente, pouco mudou: se antes o país boicotava o futuro, agora boicota o presente”.

Segundo o Atlas, desde 2008 vem se consolidando no país o que é chamado de “interiorização” dos crimes, que tem avançado de forma desigual em pequenas cidades do interior do país e no Nordeste, fazendo cada vez mais vítimas entre jovens e negros.

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O Atlas observa o crescimento galopante das taxas de homicídios em 20 microregiões do país que, no início dos anos 2000, eram considerados locais pacíficos. Senhor do Bonfim, na Bahia, que lidera o ranking, registrou em dez anos (de 2004 a 2014) uma variação do número de homicídios de 1.136%¨– as microrregiões de Serrinha e Santo Antônio de Jesus, ambas na Bahia, estão na segunda e terceira posição, respectivamente.

Taxa de homicidios_atlas da violencia 2016_Folha infografico

Ranking de homicidio_atlas da violencia 2016_Folha infografico

atlas da violencia 2016_Folha infografico

A microrregião mais violenta do país, contudo, continua a ser a área metropolitana de São Luís, no Maranhão, cuja taxa de homicídio chega a quase 85 por 100 mil habitantes. “Todas as cidades que têm um crescimento acelerado, registra-se também o aumento da violência. O estudo mostra uma relação entre condições urbanas e violência”, ressalta Renato Sérgio de Lima.

Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e um dos autores do Atlas, elenca outros fatores: a subcultura da violência, presente cada vez mais no cotidiano de jovens das pequenas cidades, tornando-se um fator de difícil reversão, e a dificuldade de se criar em âmbito federal um pacto nacional para reduzir os homicídios.

Os governos Lula e Dilma Rousseff tentaram, mas fracassaram na criação de um pacto ou programa federal para enfrentar a violência.

NEGROS X BRANCOS

Quanto ao maior número de negros vítimas de homicídios, esse é um fenômeno crescente em todo o país, segundo o Atlas. No Brasil, um jovem negro que tenha entre 15 e 29 anos tem muito mais chance de ser assassinado do que um branco.

Se ele tiver 21 anos, idade em que há maior possibilidade de um jovem ser vítima de um homicídio, segundo o estudo, a possibilidade de um negro ser assassinado é 147% maior do que um indivíduo branco, amarelo ou indígena.

No período analisado no Atlas, entre 2004 e 2014, a taxa de homicídio entre os negros cresceu 18%, enquanto houve uma redução no mesmo índice em relação aos brancos (diminuiu 14%) – em 2014, no Brasil, para cada branco assassinado, 2,4 negros foram mortos, segundo as estatísticas do Ministério da Saúde.

O Atlas da Violência diz que uma possível explicação para a manutenção dessa tendência é a redução dos homicídios em Estados onde há menos negros, como no Sudeste e no Paraná, em contrapartida ao aumento de mortes intencionais no Nordeste, onde a população afrodescendente é maior.

“O Brasil responde por 13% dos homicídios ocorridos em todo o mundo. Essa é a maior crise da sociedade brasileira, não podemos tratar isso como uma banalidade”, afirma Daniel Cerqueira.

LETALIDADE POLICIAL

Elaborado a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, que foram cruzados com informações do anuário feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Atlas da Violência 2016 faz uma crítica à constante subnotificação de casos envolvendo letalidade policial –um problema, segundo o estudo, nacional.

“No caso de mortes causadas por agentes do Estado em serviço, poderia-se esperar que os responsáveis fossem, em princípio, identificados”, registra o Atlas, mas eles não são – ou não são como deveriam, ressaltam os pesquisadores responsáveis.

Os Estados que registraram em 2014 o maior número de mortes por intervenções policiais foram São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

“O Brasil precisa urgentemente de um padrão nacional, ainda inexistente, para se contabilizar os homicídios. Em relação à letalidade policial, o trabalho mostra a dificuldade dos governos e das polícias de prestar contas. A ideia de transparência acaba sendo confundida”, finaliza Renato Sérgio de Lima.

Lucas Ferraz – São Paulo 

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