Vítimas de estupro devem ir à polícia antes de banho, alerta delegada de MS (G1/Mato Grosso do Sul – 30/10/2015)

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No desespero pós violência, mulheres eliminam provas contra estuprador. Medo e vergonha impedem que mais casos sejam denunciados à polícia.

Considerado crime hediondo, conforme Código Penal brasileiro, o estupro é um dos casos policiais que demanda mais tempo de trabalho da polícia porque o medo e a vergonha atrapalham. Segundo a delegada Rosely Molina, titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Campo Grande, dois fatores são determinantes na investigação: a denúncia e as provas materiais, mas este último fator muitas vezes é descartado pela vítima inconscientemente, quando ela toma banho antes de ir à delegacia, por exemplo.

Delegadas da Deam: Franciele Candotti (à dir.), Rosely Molina (ao centro) e Marília de Britto (à esq.) (Foto: Gabriela Pavão/ G1 MS)

Delegadas da Deam: Franciele Candotti, Rosely Molina e Marília de Britto (Foto: Gabriela Pavão/ G1 MS)

“A palavra da vítima é de extrema importância. Ela tem que procurar a delegacia, que funciona 24 horas, ligar no 180 e denunciar. Mas, além disso, é fundamental lembrar de não apagar as provas contra o estuprador. Esse crime contra a dignidade sexual da pessoa é tão violento que, geralmente, a vítima de estupro quer se desfazer imediatamente das provas. Em muitos casos, a primeira atitude é tomar banho, onde a gente acaba perdendo material genético do estuprador. Outras mulheres queimam as roupas, que também guardavam informações do suspeito, e só depois a vítima pensa em procurar a polícia”, ressaltou Rosely.

Nos últimos anos, as investigações de crimes de estupro evoluíram bastante, com novos métodos de coleta de dados e provas, mas, ao mesmo tempo, a forma de agir dos criminosos também evoluiu, alerta a delegada. “Os autores hoje em dia usam mais luvas, cobrem o rosto, mas, ainda assim, temos recursos para identificá-lo através de outras provas, que são essenciais para uma autoria clara e comprovada do crime”, explicou.

De janeiro até outubro deste ano, a Deam registrou 69 casos de estupro, número próximo aos 75 registros feitos em 2014. Em mais da metade dessas ocorrências, o autor do crime é conhecido da vítima, está dentro de casa ou tem convívio próximo, segundo Rosely.

Dificuldades

Ess relação próxima entre a vítima e o autor é um dos fatores que inibem as mulheres de procurar a polícia. O medo e a vergonha da vítima de estupro ainda impedem que muitos crimes sejam denunciados, como no caso de uma das vítimas do garçom suspeito de estupros em série. Segundo Rosely, a mulher foi violentada dentro de casa, mas não denunciou.

O crime só foi descoberto pela polícia semanas depois, após a prisão do suspeito, denunciado por outras quatro vítimas. Na casa dele, a polícia encontrou os documentos pessoais da vítima que não tinha denunciado e, em contato com ela, os policiais descobriram que além do roubo, ela também tinha sido vítima de estupro.

Por isso, a delegada ressalta que a mulher violentada recebe todo atendimento médico e psicossocial necessário quando busca ajuda da polícia.
“A vítima violentada deve imediatamente procurar a delegacia. Vamos elaborar o boletim de ocorrência, encaminhá-la ao posto de saúde para atendimento médico, onde ela recebe coquetel de medicamentos contra gravidez e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), depois ela é levada ao Imol, onde fazemos exames de corpo de delito, de coleta de material genético. Em seguida, acompanhamos a vítima até o local do crime para tentar coletar mais informações do autor. A vítima é ouvida novamente, com mais detalhes e recebe apoio do setor psicossocial”, detalhou.

Casa da Mulher

A primeira Casa da Mulher Brasileira do país foi inaugurada em Campo Grande, em fevereiro de 2015, no Jardim Imá, próximo ao Aeroporto Internacional. Com investimentos de R$ 18,1 milhões da União, a Casa tem capacidade de atendimento diário de cerca de 200 mulheres, tendo uma equipe multidisciplinar de cerca de 150 profissionais.

Dez recepcionistas fazem o acolhimento e triagem às mulheres vítimas de violência. Além disso, equipes multidisciplinares de psicólogos e assistentes sociais também atuam no local. Uma central de transportes também funcionará na Casa, para levar vítimas para atendimento em hospitais e exames no Instituto de Medicina e Odontologia Legal (IML).

No local, funcionam a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), o Juizado Criminal, a Defensoria Pública e a Promotoria do Ministério Público. O espaço também tem uma brinquedoteca, para onde serão levadas crianças filhas das vítimas de violência doméstica, durante o tempo em que as mães estiverem recebendo atendimento.

Patrulha Maria da Penha

Além dos serviços de atendimento e acolhimento, que são oferecidos à mulheres vítimas de violência, foi implantada a Patrulha Maria da Penha como forma de prevenção à violência.

A atuação da patrulha é vista como ação de prevenção. Segundo a secretária, a patrulha terá ponto de apoio dentro da Casa e será para atender mulheres com medidas protetivas.

Serviço: A Casa de Mulher Brasileira está situada na Rua Brasília, s/nº, Jardim Imá, próximo ao Aeroporto Internacional de Campo Grande. Informações e atendimentos pelo telefone (67) 3304-7559 e Disque 180.

Gabriela Pavão

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